quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Popalavras #5


A TV ilumina o quarto escuro em laivos de índigo, enquanto duas sombras dançam em redor uma da outra num jogo descoordenado. São Vito não faria melhor. Transpondo-se, invadindo-se e desfigurando-se num só retalho negro. Silvos ofegantes interpolados em gritos guturais - choro - ameaças veladas sem nexo são acreditadas por mais um punho direito ao nariz. Ligeiramente abaixo do alvo, a bota resvala no queixo e abre um corte feio, o sangue esguicha na vertical, enquanto o corpo, jaz inerte na alcatifa. Há um assentir no balançar do braço, como se fosse possível expelir o ódio através daquele ritual domingueiro. Ultimamente, as semanas sucediam-se num só instante, sem que o negrume lhe saísse das maçãs do rosto.

"Blogger Fonemas Invertebrados responde a funcionária de Associação contra violência doméstica: A Nestlé tem tanta culpa como eu"

Era possível ler naquele blog o ridículo da associação da quadra festiva ao disparo dos casos de agressões entre casais. Saltavam acusações de que a ingestão desmedida de chocolates provoca a antecipação cega do incremento do "pneu" em volta da cintura "delas", combinadas com a falta de álcool suficiente para deitar abaixo um sujeito cheio de bacalhau e peru até às orelhas. Concluindo com a inevitável machadada na programação televisiva, salpicada por reality shows, filmes infantis ou comédias românticas. Tudo isto levava à crispação no seio do lar e em toda a sua legitimidade, o arremesso da testa à parede era o desporto favorito dos portugueses nestes dias.

"Esse senhor é um porco, tolinho e sem qualquer noção do sofrimento dos verdadeiramente oprimidos: AFIRMA RESPONSÁVEL DE ORGANIZAÇÃO SOLIDÁRIA"
 
O Natal dos Silvas continua no lanço de escadas, com uma mensagem sentida: "Na minha casa só tem manias quem paga estadia", disse com ira, cerrando a porta atrás de si. O televisor continua ligado e a emissão prossegue no canal noticioso, onde Fonemas Invertebrados prossegue a sua defesa "Até parece que os anúncios para iogurtes não dizem algo semelhante?! Vejam lá se aparecem cinturas descaídas? Nem no da Ferrero Rocher. Meus amigos, ao fim de um tempo as pessoas descuidam-se com a forma e há ou não há, em qualquer relação dita abusiva, um princípio de amor. É distorcido, é, mas também genuíno. Claro, que parece melhor, a quem só lê as letras grandes, dizer que nada disto faz sentido. É rebuscado. Pessoas, como a senhora que me insiste em atacar nos media, preferem passar uma mão pela cabeça e deixar o caso entregue à polícia, que faz nada ou muito pouco. Nesses intervalos de tempo, o problema agrava-se, a vítima volta para casa e ouve o tão comum pedido de desculpas... até à próxima vez. E jogar a culpa nos produtos como eu fiz faz tanto sentido, como perder tempo de trabalho a preocupar-se mais com opiniões alheias. Será que essa senhora trabalha, de facto? Ou estava a consultar artigos científicos, quando se deparou com o meu texto?".

Solta-se uma lágrima, involuntária e suada, sobre os nós dos dedos. Observando-os ensanguentados desvia o olhar para a garrafa de vinho vazia. A cabeça deixa-se cair sobre o rebordo da poltrona e um suspiro interrompe o silêncio da casa, só a voz distante do escriba na TV consegue abafar os soluços lá de fora. Levanta-se e assoma-se à porta. "Vem amor, não te quero aqui ao frio. Desculpas-me? Não sei o que me deu. Vamos tratar dessas feridas, anda". Aqueles dois corpos magoados recolhem à escuridão, abrigando-se da luz da escada e dos olhares vizinhos espreitando pelo óculo. O blogger termina, alegando: "...Se isto foi assim pelo Natal, nem imagino o Ano Novo".


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Neil Young - Psychadelic Pill (2012)


O segundo álbum de Young este ano. Antes que o mundo acabe temos direito a mais uma pérola, este álbum duplo tem muita dor de cabeça, brilhantemente doseada de melodia. Com canções que chegam quase à meia-hora e outras que nem aos quatro minutos chegam, este trigésimo e muito registo a solo reencontra-se com a vertente audiovisual do compositor. Ramada Inn e Drifting Back (entre outras) têm direito a video em toda a sua extensão. O "psicadelismo" não tem hoje o significado que tinha na sua época áurea, mais se aproximando da auto-indulgência de um artista (ou artistas, pois se trata de álbum com os Crazy Horse) incapaz de manter fechado o seu talento.

Já chega de conversa que há muita música para descobrir e redescobrir. AQUI!

domingo, 16 de dezembro de 2012

Sabedoria Impopular

O manter o vício do álcool é como manter uma amante: depois do estrago feito é normal ter ataques de consciência, mas deixa a coisa assentar que no outro dia estás lá outra vez.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Regras da Blogosfera

Publica regularmente para manter o interesse. Nem que sejam coisas insignificantes como esta ou dizer às pessoas que é dia 12 - 12 - 12. No fim todos vão achar o máximo.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Popalavras #4


Jantar de amigos/evento social.

Claro que não vou só com o fato do trabalho, vou eu e toda a sorte do mundo em contarem com a minha presença. Contudo é importante cuidar da imagem e a face é a janela do panorama longitudinal imenso, que no fim da noite se estende para lá do fecho das calças (braguilha soa a vulgar). 

Deve começar-se pela esfoliação, por forma a eliminar tanto elementos externos como internos, sejam sujidade, óleos ou pele morta. Passo um pouco de água morna pelo rosto e contemplo a minha imagem no espelho, neste ritual corpóreo bastante para, por vezes, esquecer a alma. Tal não deve acontecer. A motivação é o reforço do Eu.

Ao fim do dia a barba dá um ar desmazelado e pouco amistoso. É gratificante comprar espuma King of Shave, pois os seus produtos são simplesmente de topo. Espalho-a cuidada e circularmente, num movimento contínuo. Deve começar-se pelas patilhas, descendo progressivamente para áreas onde a pilosidade é mais densa (permitindo-lhe mais tempo para humidificar) e acabando no bigode. Enxaguo a face com água fria: os poros endurecem; o excesso de espuma desaparece; e posso utilizar um hidratante rico em Vitamina E ou Aloe Vera, ainda que uma máscara seja mais eficaz. 

Concluindo a higiene facial, aplico uma máscara hidratante Missha Real Essential Deep Sea. Os ventos frios danificam a pele e é imperativo atacar o problema na fonte, sendo que um vulgar creme hidratante não basta. A máscara contem os ingredientes nutritivos essenciais para conferir à pele o brilho intenso da minha personalidade. 

Enquanto aguardo os 10 minutos da praxe procuro um artigo interessante para lançar a discussão à mesa. As actualidades são sempre atractivas, mas é importante encontrar a posição certa sobre um tema batido. Como reserva, convém ter na memória um qualquer fait-divers, sórdido e sumarento para satisfazer uma audiência de gente desprezível.

Com um pano ensopado em água quente limpo a máscara da face, enxaguando em cada passagem com grande gozo, ao sentir a pele suave, macia e rejubilante. A minha pesquisa temática conhece os contornos finais e graças a este tratamento facial intenso posso sorrir livremente. É o factor determinante em qualquer convívio, o sorriso. Não me refiro a um esgar dissimulado ou a uma risada constante, não. Sorrir é libertar todo o nosso positivismo naqueles músculos específicos e explorar sem reservas o preconceito geral de que a vida são balões e champanhe.

Eu cá tomo grande prazer nas coisas pequenas, nas pessoas pequenas. Em qualquer reunião há um elo mais fraco, um sujeito sem grandes atributos físicos, socialmente invisível, moderadamente inteligente (nunca irá inventar nada) ou só desinteressante. É a esse tipo que "dou a mão". Faço questão de falar com ele efusivamente, para me voltar em seguida, para a rapariga mais atraente em redor e esboçar um ar de desagrado tão evidente que não só não suspeitará da minha "fuga", como poderá observar a ostensiva mudança de expressão. Disse-o antes: O Sorriso é a chave.

 Finalmente, posso completar o exercício físico que essa manhã escolhi não praticar, com a ajuda da tão descartável companhia feminina. Só assim posso treinar o abdominal inferior com o entusiasmo necessário para o desenvolver, trabalhar o bicep e o tricep sem traumas e ter a certeza de ter um lombar equilibrado. Todo este relato ganha contornos enfadonhos quando se é irresistível como eu, no entanto, demonstra um caminho onde tantos tropeçam e caem nas armadilhas prazenteiras da carne (ou gordura, correctamente falando).


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Amor de Mãe

- "Porque é que andas com um isqueiro se não fumas?"
- "Resolvi tornar-me um pirómano, mãe... vou começar a pegar fogo às coisas, é isso."

- "Olha, se vais sair, veste um casaco que está frio na rua!"

 

 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Aaron Lewis - The Road (2012)

 
E se eu esperei para postar isto por aqui. Resumindo e baralhando, o vocalista dos Staind virou-se para a onda country (e parece que afinal sempre foi essa a praia dele). O resultado saiu antecipadamente no EP Town Line e os convertidos aguardaram a promessa. Este Novembro sai The Road e o que dizer? É uma espécie de guilty pleasure ou é mesmo bom? Como qualquer lançamento recente e diferente, é preciso mergulhar e retirar da música o que dela queríamos em primeiro lugar. Um álbum não inteiramente honesto, pois parece ter demasiado polimento para o registo cru que evoca, mas devoto e simples. Ultimamente tem andado em alta rotação, embora saiba escolher quatro ou cinco canções que realmente fazem a diferença. Destaco The Road, Lessons Learned, Anywhere But Here e Endless Summer (ou Grandaddy's Gun). Ainda assim, vale a pena saborear um pouco de Americana e só passado algum tempo é que a sombra da Carrie Underwood começa a pairar.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

2:00

Aquela hora da noite em que o sentimento está tão à flor da pele e as palavras demasiado fundo para sair.


sábado, 24 de novembro de 2012

Os Olhos do Sul: IV - Alianças Indignas

 As "férias" com Willard e Nicholas tiveram o seu final abrupto quando o burburinho na cidade lhes chegou aos ouvidos. Algures na Paróquia de St. Landry, Bayou Teche, Louisianna pode ler-se no cartaz, fixado com uma faca na porta da Igreja: "Descobriram-te. Não tens por onde fugir. Encontramos-nos na ponte velha amanhã à meia-noite. PS: vem sozinho. Ass. U.S. Marshalls". Abaixo, constava a sua fotografia carimbada de "PROCURADO". Não faria sentido não comparecer e chegada a hora haveria de lá estar.

"Nem olhes para mim. Olha para aqui se quiseres andar à porrada e vais perder, digo-te já. Fala o que tens a falar e cada um de nós segue o seu caminho." rematou Kurt, sem pejo. Não se calou e lançou o dedo encriminador: "Há dias que mais vale deixar as cartas cair... Tens falhas na organização, adianto-te. Bem os vestes como homens, mas nem o cabedal nem as correntes lhes dão tomates de ferro, ou pensas que o miúdo não falou? Sei de tudo. Fica só uma dúvida: mandas alguma coisa ou queres mandar?"

"A conversa acaba aqui.  Não sei quem julgas ser para desafiares a autoridade como tens feito desde do Texas, mas vais-te por a direito a partir daqui. Nem que tenha de te amarrar à última cadeira na última cidadezinha do Alabama, vais-me entregar o Comanche!" Hawkes, continuou subindo o tom. "Vim para te vir buscar, meu parvalhão. Se queres tornar isto num concurso de bocas bem podes ficar a falar, enquanto te caem em cima. Ou pensas que estou aqui sozinho?!"

Como quatro vértices de um quadrado, as motas acenderam os seus faróis e iluminaram a ponte. Cercados, os dois homens baixaram a cabeça e levantaram os braços. No chão, várias sombras se moviam como fantasmas na água, diante de Kurt. Do que conseguiu descortinar, o mesmo se passava nas costas do Sargento Hawkes. O passeio na luz foi subitamente interrompido por dois tiros vindos da penumbra.

Kurt Stone continua a disparar. As balas voam directas ao alvo, tal e qual tinha aprendido no bayou: trazer os alvos para a linha de visão e não o contrário; focar os olhos na mira frontal e apontar ao centro do alvo, de modo a ver duas miras frontais e o alvo desfocado; para tiro certeiro, mudar o foco várias vezes entre a mira e o alvo até estar satisfeito; para tiro rápido, baixar a mira traseira em relação à frontal e apontar ligeiramente abaixo no alvo, de modo a obter um encaixe mais eficaz em conjunto com o ritmo da arma. As farpas saltam dos pilares de madeira da ponte coberta.
Pouco antes do disparo seguinte reduzir uma das motos a uma pira incandescente nessa noite sem luar, Kurt colou-se à parede e furtivamente se colocou atrás do seu carrasco. Poucas execuções são visíveis no clarão de um disparo, mas a explosão de osso, miolos e sangue foi ofuscante como o fogo em si.

Ainda o corpo do primeiro não tinha tremido o chão e Hawkes rodava sobre si próprio descarregando o tambor na última sombra de pé. O impacto dos projecteis ensurdeceu a escuridão e o repetidor calou o silêncio em ritmo tão certo como as batidas do coração. Era um dos motards, indistinguível no meio do breu. Kurt havia-se ocultado, encostando-se à parede e permitindo o embuste. 

Todos caíram, excepto os dois pistoleiros. "Acho que vamos ter de resolver isto à maneira antiga..."

A cápsula voa e sai-lhe lentamente do ângulo de visão. Segue-se o fumo branco e o cheiro a pólvora. O revólver encravou. O marshall, sendo um homem experiente em lidar com armas, sabia que teria sido do sobreaquecimento: O cilindro de aço inoxidável expande com o calor, e não é possível premir o gatilho, aliás todas as peças parecem estar soldadas. Mal teve tempo de segurar na arma de apoio que foi atingida em cheio, caindo à sua frente. Estava desarmado.
Um breve momento de tensão iluminou o olhar dos dois homens enquanto se quedavam impassíveis. A arma jazia a cerca de dois metros e não fosse a idade, Hawkes só precisava de uma distracção para se lançar jogando a sua cartada. 

Do outro lado, Kurt queria a resposta às suas perguntas e bem lhe custava finar um marshall dos Estados Unidos sem estar completamente satisfeito com a escolha.

Um ruído estridente o suficiente ou um flash de luz bastariam para voltar a situação a favor da autoridade. Os segundos passavam e a mandíbula não ficaria hirta durante muito mais tempo, o tremor das pernas seria aparente e o medo mataria-o antes que qualquer bala o pudesse fazer. 

O fugitivo parecia ter a vantagem e não a iria perder, só o tempo se interpunha entre ele e o sucesso. Quanto mais esperasse, mais o adversário ganharia confiança para fazer Deus sabe o quê. 

Kurt pressionou lentamente o gatilho até metade, tão vagarosamente que nem a experiência de Hawkes o deixou arriscar qualquer acção, tal era a iminência da morte - estava hipnotizado pelo cano da arma, sem que nada acontecesse, haveria sequer aviso? Contou um, dois... era agora - Como uma cascavel, de súbito removeu o dedo e deu dois passos para a frente, apoderando-se da pistola caída. O doce triunfo humilhante era todo seu e o velho ajoelhou-se em resignação. O calor da noite estava cada vez mais frio.

"Os amigos escondidos no mato. A pontaria certeira. O pensar fulminante e as pernas ágeis. Ganhaste mesmo antes de teres pisado este chão. Que queres mais?"

 "Entre goles de óleo, o Tommy Crow espirrou o teu nome. Bem, na verdade foi qualquer coisa como Elrod, mas eu percebi a ligação. Portanto, a minha pergunta é: Porque diabo andas tu a tentar caçar um elefante quando nem sequer consegues apanhar o rato nas tuas costas? És só estúpido ou estás mesmo com eles?"

"Digo o quê agora? Posso dizer tudo. Na verdade, quero é que te ..das..."

"Vais ser morto com a tua arma, no meio do bando que nunca conseguiste erradicar e dentro de um dia ou dois apanham o chibo na tua equipa, enquanto o Comanche se ri. Não tens a ponta de orgulho?!"

"Diabos me fo...! Acho que vamos ter de chegar a uma espécie de acordo..." sorriu Thomas Hawkes maliciosamente, enquanto Stone baixava as armas.


Os Olhos do Sul: Intervalo (III - IV)

- "Existem homens naturalmente maus, pai? O Kurt é um deles?"

- "Não, Nicholas. Há homens que vivem para a sua missão, aquela que Deus lhes deu. Nós temos a sorte de estar em constante comunhão com o que Ele pretende para nós. O Kurt precisa de tempo para crescer aos olhos de Deus."

- "...e o nosso trabalho é ajudar?"

- "É sim, filho. Os homens vêm a nós por ajuda, não por clemência divina, porque para isso vão à cidade, a uma das outras casas de Deus. Nós conhecemos tanto o pecador como o pecado."

- "Foi por isso que o ensinaste a disparar?"

- "Foi por isso que também te ensinei a ti."

- "Nós vamos estar naquela ponte com ele, não é?"

- "Lá perto, o que for preciso para equilibrar as forças."


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Regras da Blogosfera

Nem tentes ler nas entrelinhas, ninguém vive aqui. 

Estamos todos de visita.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Led Zeppelin - Celebration Day (2012)


O que há para dizer que já não tenha sido dito ou que eu não tenha dito. A melhor banda rock de todos os tempos, sai da reforma para um último (?) concerto. 10 de Dezembro de 2007, foi a noite de todos os sonhos.

Com o filho do seu baterista original a assumir o "trono" do pai, apresentam-se a uma geração que não os conheceu. Até agora só dava para imaginar, se tudo antes afirmado e exultado sobre aqueles músicos seria ou não verdade. Excluindo dois ou três biscates, nunca antes tinham assumido a importância de trazer o nome ao escrutínio público. Podendo dizer: "Estes somos nós".

27 anos depois, voltam a ensaiar, a entregar-se à comunhão musical e ao seu Olimpo no mundo da música. Duas horas e tal depois, não há absolutos. O seu público mudou e o novo é capaz de descortinar uma ínfima fracção da glória e harmonia do trabalho daqueles homens. São dinossauros, ainda que, nunca ultrapassados. Lendas vivas encarregues, por duas horas, de carregar o peso do mito.

O misticismo está todo lá e o trabalho também. O brilhantismo, a alegria e a sorte de poder voltar a ser maior que a vida estão reunidos neste lançamento. Versões inéditas, versões definitivas e versões alternativas farão as delicias dos que já conhecem, apesar da "obrigação" de comprar todo e qualquer lançamento da banda. Hoje, em alta definição, é sem sombra de dúvida a data mais importante do ano em termos culturais.

Os tempos áureos não voltam, mas a ilusão pode ser tão real...

PS: por razões de fidelidade não irei postar link para o mp3. Zeppelin não é banda para esse formato.

Pensa Rápido: Eutanásia

É uma "voltinha" como dizem? Pode ser!

- Há dois anos, Julijonas Urbonas (candidato a PhD do Royal College Of Art de Londres) desenvolveu, com base na sua experiência a trabalhar num parque de diversões, um modelo de montanha-russa temática. O tema era "uma morte divertida", a concretizar em 7 loops, cujas forças gravitacionais retiram o oxigénio do cérebro e matam o passageiro.

- A acontecer, quantos candidatos a Presidente dos E.U.A. diriam que, com ele nos comandos fazendo marcha atrás, ressuscitava o Elvis? 


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Popalavras #3


Não, não foi desta que usei a Taras e Manias. O desapontamento é grande, mas estamos só a começar a tocar naqueles temas quentes ou, à moda de Almada, a "éxperimentár novás sensáções, Dáma". É verdade. Quanto mais me bates mais gosto de ti.

Parece que os aficionados do BDSM (Bondage, Disciplina; Dominio e Submissão; Sadismo e Masoquismo) andam bem indignados com o conteúdo do livro "As 50 sombras de Grey". Depois de voltarem a ler a frase duas vezes, repitam comigo: Mesmo?!

Nem iria brincar com algo tão sério... É verdade. Diz aqui.


Agora que estamos esclarecidos venham as dúvidas. Quem? Onde? Quando? Como? Porquê?

1.º - Quem? Praticantes da modalidade, pois claro e Professores que leccionam cursos de fetichismo sexual em Universidades acreditadas para o efeito. Isso existe?! Mais uma vez as respostas geram mais perguntas. O melhor é passar a tratar estas pessoas como Doidinhos Não-Certificados (DNC), por forma a simplificar.

2.º - Onde? Califórnia. Toda a gente sabe que os malucos vêm de lá e sendo os DNC uma sub-espécie, não poderiam andar longe. No entanto, diz-se que a moda está a fazer furor na Grã-Bretanha, o que interpreto como uma corrente revivalista dos  Swinging 60's e decerto não durará. Aguardo com expectativa a chegada da moda a países como a Bélgica, por forma a alargar os limites (etários...) da diversão aos mais novos.

3.º - Quando? Pelos vistos, os DNC apenas se pronunciaram sobre a existência de tamanho contributo literário no mês passado. Ainda assim, calculo que devam ter ido logo a correr buscar o último volume, mas não quero generalizar. O artigo onde li isto só saiu o mês passado. A Verdade? Cada um sabe de si, acusem-se.

4.º - Como? O livro está a fazer um sucesso descomunal na população feminina e há cada vez mais donas de casa a "exigir" aos maridos que se actualizem: "Não quiseste comprar a Bimbi, agora vais ter de ler aquilo e reaprender a ser tarado". A corroborar essa afirmação, relembro o caso de uma senhora e seu marido cujo divórcio foi exigido pela primeira, fundamentando-se na falta de razoabilidade desse, ao recusar-se a reproduzir as peripécias sexuais descritas no  folhetim.

5.º - Porquê? Ultrapassado o choque inicial será que conseguimos compreender a indignação dos DNC? (Espero não revelar partes importantes da história) Ora, os senhores e senhoras praticantes do BDSM acham que a autora retrata estas práticas e comportamentos sexuais desviantes como sendo doentios. Não é nada disso, dizem eles. Podemos suspirar de alívio: Não há coisa mais segura e divertida do que levar umas palmadas de vez em quando, enquanto, que a relação entre os personagens é abusiva, emocionalmente insegura e insana. É quase insultuoso: Na realidade, dentro dos círculos profundos do BDSM, as pessoas negoceiam e assinam contratos, indicando a priori quais as doidices que vão fazer, enquanto na obra de ficção todas as regras são quebradas. É verdade, dizem eles.

Detesto parecer um puritano. Não sou. Parece-me é bizarro, o sentimento paternalista destas pessoas em relação à popularidade e influência da "obra" no comum dos mortais. No fim, são mesmo as vendas do livro que me espantam (e aos sadomasoquistas também).



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pensa rápido: Greve

Hoje é dia de greve geral. 

Duas coisas se assomam à ideia:

- Os manifestantes da linha da frente têm cara de quem quer emprego e medidas de incentivo à economia;

- Existem hoje 38 contratos no âmbito da indústria da exploração mineira. Mais, muitos mais dos que existiam antes da crise. A riqueza mineral portuguesa está estimada em dois PIBs e outras indústrias irão reaparecer.

A indignação e/ou desespero daqueles a lutar nas ruas pelo seu modo de vida não conhece esta situação. Não a vai conhecer.

Tenho para mim que há uma revolução silenciosa a ocorrer neste momento.

No ruído que se faz ouvir, fica a sensação de que por muito barulho que façam e mesmo que tudo mude, é para tudo ficar na mesma. (Giuseppe Tomasi di Lampedusa).

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Joanne Shaw Taylor - Almost Always Never (2012)



Preparem-se para um portento musical! E não só, mas isso sou eu que tenho pancada com loiras. Daquelas que tocam guitarra como... aquilo... que é muito bom... brutal e coiso... Epá, este álbum é mesmo do melhor e esta senhora a rasgar é a "coisinha sexy" mais talentosa que vi nos últimos anos.

Almost Always Never é tipo cena de gaja, ainda que por dentro tenha quilómetros de blues ajazzados (isto pode-se dizer? se disse é porque pode!). Destacam-se Soul Station, Tied e Jealousy neste álbum virtuoso e intenso. Talvez se mostre pouco distante do anterior Diamonds In The Dirt, ainda que superior após várias passagens.


sábado, 10 de novembro de 2012

"Estou vivo, idota!"

Querendo atenção é só carregar nos botões certos. A auto-estrada da informação estupidifica muita gente e a imbecilidade é uma das melhores formas de desinformação.

Tão grave é mandar abaixo um blog como ostentar imagens com frases em "zuka" no Facebook. No entanto, há quem faça pior: a moda parva das mortes falsas.

Quem é que se lembra de vir anunciar a morte de alguém que está vivo?! E tão parvo é esse como aquele que difunde. É a ânsia de dar as novidades, de ser o portador da notícia (que afinal não é notícia). Agora lembrava-me de vir aqui copiar o texto da Lusa no dia em que o Michael Jackson se finou e mudar o nome para o Passos? Aparece um amigo e "compartilha". Os seus seguidores espumam de excitação e fogem para A rede social, mais não seja, para enviar condolências. A mentira alastra. Mais logo, ao fim do dia, já a pirâmide faz inveja à Herbalife.

A coisa até acaba por ganhar contornos demasiado ridículos: Ora, tendo conhecimento da brincadeira, vem o "defunto" anunciar na sua página que está vivo e bem vivo; correndo para os espaços noticiosos, seja no jornal, seja na televisão; quem não sabe da história, assiste impávido à redundância que é alguém vir a público dizer "estou vivo!". Conclusão: a imbecilidade faz notícia.


Black Country Communion - Afterglow (2012)


Para quem não conhece este supergrupo (que vergonha...) passo a apresentar: Glenn Hughes (Deep Purple), Joe Bonamassa, Derek Sherenian (Dream Theater) e Jason Bonham (Led Zeppelin). Já no terceiro, mas sem descolar da toada dos primeiros, a banda que trouxe de volta o rock clássico chegou ao fim. Nem houve direito a concerto de despedida. Sair a ganhar parece ser o lema e os músicos apresentam-se mais soltos (em especial Jason Bonham) e autênticos. Uma espécie de conjunto de "renegados" que, certamente, mereciam mais. Ouçam e rezem por uma reunião.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Regras da blogosfera

Nunca subestimes a banalidade dos outros, nem sequer a tua. É fácil ser vulgar quando se quer atenção.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Popalavras #2


Ouço falar em dias de glória e automaticamente regrido ao liceu durante dois breves segundos. Logo de seguida volto e esbofeteio-me, de parvo que fui em dizer mal disso na altura. Numa frase: Aquela doce diversão pueril (o que significa esta palavra? Vão ao Google!). Não há como explicar e reimaginar "um dia na vida" aos 16 anos.

8:30 - Acordo com a força operária a sair de casa e durmo mais um bocado antes de fugir para a paragem de autocarro. Continuo a dormir, provavelmente vesti a roupa de ontem e não tomei banho (já lavar os dentes é obrigatório). Olho para a gorda nos dois bancos da frente e lembro-me do resto de pizza que comi ao pequeno-almoço...

9:30 - Atrasado para as aulas, meto dois dedos de conversa com o contínuo. É importante socializar com quem já viu o mundo com olhos mais maduros. Atrás de mim passam jovens delinquentes, refundindo sacos de erva nas mochilas. Não tarda até ir provar a minha "amostra" grátis... Nada como encarar o ensino de mente liberta. A primeira hora passa-se bem, até dá para bater uma sorna antes das coisas ficarem demasiado intensas.  

11:30 - Começam-me a fazer perguntas e a assacar responsabilidades que interferem com o meu ego. "Não quebres o meu estado apático, velha!".

12:00 - O sol começa a aquecer e a ruiva da cadeira ao lado nem treme quando lhe passo a mão pelas pernas. "Vocês ficavam por aqui? Claro que não." Num duelo de mentes e mãos levo-a à exaustão e, finalmente lá chego à "tarte de maçã" (diz que esse filme era popular na altura, mas não vi). A última meia hora passa num instante.

13:00 - Almoço. Pizza e cola.

14:00 - Nem pensar em voltar àquela prisão fascista. Dois ou três amigos chegam a mim transtornados: Parece que existem miúdos desejosos de se ver livres de algum peso na carteira. Alguém tem de ganhar para o tabaco, certo? 

16:00 - A ruiva passa por mim com um olhar guloso no caminho para casa... "Vocês ficavam por aqui? ...bem, me pareceu"

18:30 - O dia começa a abrir e volto a casa revigorado. O irmão grande acordou e deixou um saquinho de cheiros na gaveta, "É preciso perguntar outra vez?". Acção.

18:45 - A "oficial" bate à porta e atira-se a mim como qualquer janado a uma beata. "Dá e receberás" sempre foi o meu lema, isso ou "nunca pagues adiantado". Coca-cola é coisa de crianças e aquelas pernas deviam ser para maiores de 18. Só por essa passo logo lá para cima.

19:30 - Entramos na zona crítica: os senhorios podem chegar a qualquer momento. O destino lá saberá.

19:42 - Afinal o destino quis que o vizinho de baixo desse em vociferar alto e em bom som as calamidades que se passavam durante todo o dia no prédio. Há males que vêm por bem e o último grito vem mesmo a horas de se diluir por entre o barulho de fundo da vizinhança.

19:48 - Aquele olhar pós-coital... Os pais chegam. Perguntam e acusam suavemente. "Mais sério que a gente?!", contraponho, indignado. O estudo fornece o álibi e bato com a porta.

20:20 - Estou atrasado para o jantar. É dia de comer fora e o amorzinho compadece-se da injustiça com que o mundo me trata: ela paga. Pizza... e vinho. Classe.

21... - Bebi demais e esta tipa não se cala. Faz-me dizer coisas que não quero: "Não quebres o meu estado apático, p***!".

... - O irmão grande diverte-se num bar com os amigos. Eu divirto-me também. Bebemos shots e celebramos a vida.

...mais tarde - Chego a casa. Durmo. Amanhã o fim-de-semana começa à 5ª.

Que dia glorioso. Atlântico. O Boss sabe o que diz. Fico com a sensação que estamos a entrar na juventude quando ela já está a sair. Recordar estes dias não é viver... é tudo o que se pode fazer antes de perder a memória. Ou o fígado.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Rival Sons - Head Down (2012)


Só me dá vontade de dizer para pararem de ler, clicarem no link e ouvirem este disco fantástico. Que grande passo em frente foi dado por estes senhores. Composto por adultos comportando-se como adolescentes, desde Keep On Swinging até à magnum opus Manifest Destiny Pt.1 a música toma-nos de assalto e não faz prisioneiros. Não que o final seja fraco, mas depois daqueles oito minutos devastadores torna-se difícil encarar a ...Pt.2 e True com o mesmo entusiasmo. Talvez seja de mim, vá... Resumindo: já não é só Zeppelin e Stones, há aqui soul, personalidade e groove para dar e vender.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Popalavras #1

Esta nova rubrica consiste num roubo descarado de uma ideia da personagem do Ethan Hawke no Antes do Anoitecer. Ora, proponho-me a fazer uma actualização semanal daquilo que tão inocentemente (ou não)  preenche o meu imaginário, no espaço de tempo de uma música pop. Se tudo correr bem serão presenteados com pérolas musicalmente ficcionais, inversamente, lá chegaremos à Rihanna e Cª. Prontos?


Tive a minha primeira experiência a conduzir Karts. Na verdade, tratou-se da "Primeira Corrida Intercontinental Fonemas Invertebrados". Dão um carro para as mãos de um sujeito cheio de testosterona e com assuntos pendentes com o destino, como aqui o tipo-com-um-nome-de-blogue, e está o baile armado, no que toca a esquecer todas as... (epá, não me lembro da palavra e já vamos naquela parte do "pap pap pahhh") mariquices e blá blá qualquer coisa, segurança na estrada.

O tiro está dado e saio quase em último. Pé no prego. Curvas! Travão! Sem largar o acelerador: derrapagem. O calhambeque que me deram veio com defeito e o piso deve estar escorregadio - quase perco o norte e cheiro a relva, quase... Receita: a fundo. Ultrapasso uns quantos e o encarnado dos olhos começa a vermelhar. Curvas abertas: carrega e segue a direito! - Apertou de repente: Trava! Nunca largando o pedal. O bandeirola que está de fora avisa-me para alternar com os dois pedais - "Queres o quê ò parvalhão?! Anda cá para dentro e ficas a dieta de pó como os outros!"

Os lugares estão em disputa e já passou a parte em que a música fala do Bruce Springsteen. Ficou a nata do asfalto, os tipos a abater. Um deles despista-se e embate no outro: Azelha! O carro 27 é tudo o que me resta até à glória eterna (já ouvi antes "this is one race he won't win", até a banda está contra ele e tudo corre bem). Imagino o Domingos Piedade a dar-me os parabéns na meta e a gritar extasiadamente o meu tempo pela a volta mais rápida, mas o carro 27 nega ainda o doce complemento do realismo. Passam duas voltas e chego cada vez mais perto, ficando sempre tapado nas curvas. 

À nossa frente sai da boxe um machimbombo conduzido por alguém de costas magras e casaco de cabedal castanho claro - é uma gaja! Ela vai arruinar tudo. É desta que me levam o carro e a saúde, que o dinheiro já foi todo para o Passos. Ele passa-a, enquanto ela me corta bruscamente a ultrapassagem. Domingos? Como é que deixaste que isto acontecesse?! Estou desgraçado, o 27 já lá vai e eu preso à retaguarda - "*uta, és uma filha da *uta. Morre." - Não morreu, no entanto, devido a circunstâncias que desconheço o 27 surge novamente à vista. Mesmo a jeito para ela o passar. Macumba, só pode.

O 27 saiu-me um pila mole e na última chicane tiro o pé do pedal antes da curva para carregar novamente com toda a força, deslizando por fora. A vida passa-me diante dos olhos enquanto o bandido conduz à velhota ao meu lado. Vêm-me à memória as aulas de física do 8º ano e a noção de força centrífuga pega-me pelo braço para o castigo - "just look at us now..." - insisto, repito e largo ligeiramente o volante por instinto. O bólide endireita-se, o biltre assusta-se com o meu arrojo. Ficou para trás na recta da meta. 

Já dizia o Paddy com tremenda sabedoria, no nosso inglês traduzido: há coisas piores que carros e gajas. Há: É perder uma corrida de carros para uma gaja. O terror. A desonra. O drama. A corrida acaba e tiro o capacete para ir direito à lésbica que me custou um dia em cheio. Vista de trás é a figura do Demo: cabelo curto e pernas de canivete com andar à camionista. Já de língua afiada para lhe mostrar o "charme", a tipa vira-se... é um tipo! Raquítico, com ar de quem saiu do autocarro da CERCIMB e mais magro que o Maquinista. Deve ser um batido nisto, daqueles que já tem as costas da cor do banco e os pés agarrados aos pedais como ventosas. "Batoteiro...o campeão és tu" segreda-me o Domingos ao ouvido. Tal e qual. Se soubesse nem cá tinha vindo suar a camisa. Quero lá saber de carros e gajas - a minha vida já tem uma senhora digna desse nome e pago o suficiente em prestações do carro para andar a gastar em brincadeiras. Até para a semana.

sábado, 15 de setembro de 2012

Bebida, mulheres e cantada

O tilintar vítreo dos cubos no copo anuncia mais uma rodada e ainda não passava um quarto das dez. Enquanto isso, tomam-se uivos primitivos e outros silvos em tons de negro e azul florescente no "Long Tall Sally's".

- "Hey, Lester. Obrigado pl'aquilo d'há bocado e tal, mas quando pensas pagar a conta?" proferiu o barman. Pouco tempo antes, os lavabos masculinos haviam sido remodelados com as feições de um efeminado. A ajuda dos fieis foi apreciada e devidamente recompensada.

Petey era um sujeito cuidado, conhecido na zona como a cara atrás do balcão. Não havia outro bar e tão cedo não haveria outra cara - "viver e morrer em Reading..." era o lema de Pete quando as coisas corriam mal. Tratava bem os regulares e encantava os visitantes com as luzes baixas e as cores frias da cidade. Ainda assim, quando obrigado, sabia atacar do seu canto. Ou achava-se sabendo.

Lester Pepper estava absorto nas suas considerações, agitando subitamente os braços em movimentos orquestrais, desviando por completo a atenção da sua estranha figura: a sua estatura impedia-o de ser visto como "magro", era esguio; a sua face revelava alguma idade, sem que o cabelo negro desse sinais de brancura, mesmo bem puxado para trás; e usava óculos, escuros, de ciclista, à noite e num bar. De facto, um piloto de avião dos anos 20 estaria mais bem enquadrado naquele sofá de canto.

- "Então Lester como vai ser?" inquiriu Petey, talvez com um pouquinho de zelo a mais do que a situação exigia, recordando a proverbial aversão ao pagamento de dívidas que o álcool causa. Lester esticou a mão esquerda e estalou os dedos ao serviçal - "Estais a chamar-me irlandês ou fui eu que percebi mal? ...Deixa estar! Em vez de responderes ouve o que te digo: A conta vai ser paga por um daqueles dois tipos. Até te dizia que era o mais baixo, não fosse estar demasiado ébrio para citar detalhes" e apontou sorrindo, para um indivíduo baixote de tez morena que olhava descaradamente para a namorada do segundo, um largueirão avolumado a esteróides, acompanhado da "puta" e dos outros dois "estarolas".

Petey protestou, mas havia um ingrediente secreto no timbre do bêbado a dar-lhe a volta à cabeça. Simpatia. Uma das palavras menos conhecidas no universo da clientela do Sally's, tendo-se tornado um bem escasso nessa vida de barman. A urbe era frequentada por gente rude o suficiente para nem se incomodar a despir o fato de macaco, antes de fugir para a "sexta à noite" e Lester jogou essa carta com extrema precisão. O seu "triplo, sem gelo" não tardaria a chegar. - "É pena Petey... até sou irlandês..." murmurou para si num esgar de gozo.

No dia de São receber a festa era dos empregados, que iam e vinham enquanto as horas passavam. E nas tais cogitações de Lester Pepper não haveria pior emprego que o de vadio. Hora de pagar. Levantou-se, dirigindo-se ao segundo na contagem, o tal "guarda-fatos":

- "Boa noite, amigo."
- "Não sou teu amigo. Desanda."
- "Quanto vale uma dose?"
- "Hein?! Quem é que pensas que és?! Já te vi na vida?! Desaparece-me da frente seu agarrado de merda!"
- "Antes disso diz-me uma coisa. A coca que tens no bolso paga a porca que está levar com ele no WC? O produto foi feito para o lucro e ela está levar de graça, amigo."
- "Que estás para aí a dizer?!" e voltou-se para os macacos "Um tipo não pode falar com ninguém que vocês deixam-se dormir? Onde é que ela foi?!"
- "Vou andando, amigo" e acenou ao barman com o copo vazio. Pousou-o no balcão e despediu-se - "O meu amigo trata da conta!".

"De que serve a vida se não nos matamos um bocadinho?" era o lema de Lester Pepper.

sábado, 8 de setembro de 2012

Os Olhos do Sul: III - Santuário

Passo a passo, haviam três dias que tinha deixado Texarkana, depois de executar os seus perseguidores. Aos agentes que o escoltavam demonstrou a sua faceta mais misericordiosa e deixou-os na bagageira. Vários anos num buraco tiram o sentido de conforto a um homem, mais a um que não compreende porque está vivo - no entanto, eles pareciam integrados o suficiente para testar a claustrofobia por umas horas. Tomou uma camioneta de transporte de aves, dissimulado na traseira, para em trocar de boleia em Shreveport na direcção de Lafayette, Louisiana.

Viajar de noite tem que se lhe diga. Tem até animais no meio da estrada, quem sabe atraídos pela luz dos faróis ou apenas desprovidos do instinto básico, que leva qualquer criatura com ambições de sobrevivência a não se mandar para a frente de um corpo a 75 milhas por hora. Existem picos de sono, queiramos ou não, a meio de uma conversa sem interesse. Essencialmente, tem paragens para descanso e para utilizar os lavabos. Numa dessas paragens, Kurt saiu do carro em direcção ao WC, tal como o condutor da pickup GMC, de seu nome Roland. O sono e a fome só priorizaram sua a necessidade de alívio, a única cuja satisfação era possível na altura. Aquele minuto, desde o desabotoar das calças ao esfregar das mãos é sagrado. Kurt sabia-o e Roland sabia-o. Mais desperto que nunca, abriu a porta com um ar triunfante e realizado, contemplando a área de descanso: Um pequeno parque de merendas a este, a encruzilhada de estradas para oeste e o estacionamento a norte; a carrinha GMC, essa abandonava agora o estacionamento a grande velocidade. Ficou o cheiro a borracha queimada e, pois claro, o pendura.

Deixado à sua mercê num estacionamento deserto no meio da noite, pouco depois de Bunkie, Lousianna, decidiu continuar a andar. Não sabia para onde ia, apenas saiu da Interstate 49 e enveredou por outro caminho em direcção a Lafayette. Caminhou por pequenas povoações, mantendo para si que os seus bolsos vazios e a imagem deslavada não lhe permitiam pedir ajuda nem trabalho. Muito menos mendigar. Não o faria, pois não sabia nem tolerava fraquejar dessa maneira. "Que humilhação, ser atirado para berma da estrada por um campónio que tirou partido das suas necessidades básicas" - pensava e repensava, enquanto puxava pelas pernas.

Com alguma frequência, quando um sujeito olha para o horizonte quase consegue agarrar as folhas das árvores e pisar a terra, sem que o resto importe. Essa é a vontade e o crer, o espírito do homem de sangue fresco. É, mas está calor, arde na cabeça e pesa no corpo, sem alimento nem descanso. A vontade é quebrada e o crer não levanta os braços à altura dos ombros, quanto mais dar outros dois passos na direcção do abismo horizontal, mesmo diante dos olhos. A obstinação férrea é o que leva ao limite e dá esses dois passos sem pernas, rastejando e percorrendo os centímetros na areia como se fossem metros.

- "Olha para ti. Tremes por todo o lado. Há quanto tempo não paras ? Há quantos dias vagueias sem rumo? Descansa e permite-te a pensar no que fizeste..." pregava Sarah num eco constante.
- "Cala-te! Deixa-me andar que preciso de andar. Quero andar! Quero, quero ir, estás a ouvir?!" retorquiu Kurt desarticuladamente, num sopro quase tão seco como a sua boca.

A aparição foi subitamente interrompida por uma bátega de água fria que se abateu sobre o seu rosto, quase enterrado na areia. Entre urros que não distinguia, ao fundo uma voz de criança exclamava - "ele não acorda pai! e agora?" - E caiu, mais uma vez, a água sobre ele, correndo o fio pelo pescoço abaixo. - "Estou acordado!" bufou. Erguiam-se defronte do seu corpo prostrado duas pessoas: um homem e o seu filho. O pai, era um individuo esguio com barba loura de traços grisalhos, vestia casaco e camisa negros com calças de ganga e botas de trabalho. Já o filho aparentava os traços de uma criança saudável e estava aperaltado com um fato domingueiro. - "É um bêbado, paizinho?" - "Não sei filho...". E seguiram mirando, até ele se levantar. Na margem do riacho, que dividia a estrada a vegetação crescia em redor num verde muito vivo, com ervas altas e arbustos acercados das árvores. Via um rapaz de cara redonda sorrindo timidamente e apreensivo, olhando, ora para o pai ora para o estranho. A dor latejante na zona lombar não fazia esquecer a moinha nas costelas, entorpecendo-lhe o raciocínio e o discurso. Levantou-se para logo ceder.

- "Não sei se me estão a empurrar para fora do caminho, em todo o caso só precisei de um refresco..." disse, tombando o corpo para cima dos viajantes.
- "Quer que o deixe nalgum lado? Certamente, não está capaz para andar..." falou o pai.
- "Mais umas horas e volto à estrada, não pensem que vou ficar aqui! Quem são vocês?!"
- "Willard Ledeux, cavalheiro. Reverendo da Igreja da Colheita Reformada. Diga lá amigo, está embriagado?";
- "Hein? E o rapaz?";
- "Meu filho..., ouviu o que lhe perguntei?";
- "Reze por mim daqui a umas horas padre...", e voltou a deitar-se no chão.

O reverendo segredou ao ouvido do filho e o rapaz, bem ordenado, abriu a bagageira da pickup - "Permita-me a graça de lhe facultar uma refeição quente e uma cama na minha missão, senhor..." - Kurt escutava admirado com o desprendimento do cúria, que se ajoelhou à sua altura, em súplica.
Reuniu todas as suas forças para declinar a oferta, apercebendo-se lentamente de estar a lutar contra si próprio.
- "...escute padre... não quero parecer mal e não nego que até posso dar ares de perdido, mas Deus não quer o meu tipo na sua casa, percebe-me?";
- "Deus não distingue... e eu não quero falar a sua palavra a ouvidos moucos. Asseguro-lhe apenas que não é o primeiro. Do seu tipo, já eu fui. Perdido?! Evadido, sabe-se lá de que buraco e agora lançado ao mundo...";
- "...cumpri a minha pena padre e não cobro nada a quem não esteja a dever!";
- "Bem sei filho, bem sei... e já li essas palavras na lápide de muito homem. Deus não sente, mostra... Prometo uma refeição quente e cama por uma noite. Mais que isso... bem, faz-me jeito uma mãozinha a mais na missão. É justo para si?";
- "Não tem medo padre? Um tipo como eu, junto da família?";
- "Sou só eu e o Nicholas, a minha esposa já não está entre nós. Afianço-lhe no que Deus não mostra aos incautos, sabemos tomar conta um do outro.", disse batendo na jaqueta. - "O pai tem uma pistola! Bam, bam!", brincou Nicholas, sem que o reverendo esboçasse um sorriso.

Os dois homens olhavam fixamente um para o outro, Willard, sereno e firme, enquanto Kurt cerrava os dentes para se esquecer do buraco no estômago, das dores nas costas e do receio de confiar noutro ser humano novamente. - "Como se chama o senhor?" perguntou Nicholas. - "Kurt, sou o Kurt. Vamos já, pode ser, Nicholas?" - agora munidos da distracção que precisavam para sair empatados do duelo de olhares, os dois homens apertaram a mão e levantaram-se.

A poucas milhas acima, erguia-se a igreja no meio do mato verdejante. Um edifício velho em madeira, mediocremente conservado, despojado da sua cor original pelo sol e chuva, sem se poder afirmar com certeza de ser corrido a frestas ou tinta estalada. Nas traseiras estava o barracão de ferramentas e dispensa, rodeado dos lados por um galinheiro e por uma clareira, onde assentavam várias colmeias. No interior, a casa do senhor não escondia luxos: dois quartos e uma cozinha ensaiada; lá fora, mas contíguos ao edifício principal haviam, em cantos opostos, uma retrete e um chuveiro.

As tarefas eram simples, ainda que árduas: levantar ao raiar do sol; tratar das colmeias com o reverendo, inspeccionando e mantendo-as contra aves migratórias, verificar a população de abelhas e recolher o mel ou voltar os favos; tratar do galinheiro, limpando-o, recolhendo os ovos e alimentando as galinhas. Ao longo do dia os fieis do bayou visitavam a igreja, eram trabalhadores dos viveiros de camarão, agricultores ou criadores de gado e todos eles ajudavam o pai Ledeux com pequenas oferendas. Aos Domingos o reverendo falava abertamente à pequena congregação desse meio rural, sobretudo da entreajuda na comunidade e da fé em Deus, que através dos vizinhos chegaria até ao mais pobre. De tarde haviam pequenos convívios no rio, onde se bebia, cantava, cozinhava e até testava a pontaria nas garrafas vazias.

Kurt respirava pureza, não tanto do ar como dos espíritos. Sarah era hoje uma ferida cauterizada, via-a no horizonte para onde não queria olhar e onde ela não se mostrara mais. Em divagações, chegou questionar Willard se não teria sido assombrado por um espírito profano repelido pela santidade desta casa. No entanto, insistia em guardar para si todos os detalhes do seu passado e a discussão terminou com um - "...deve ser a humidade do rio que me põe estes pensamentos na ideia. Não vamos maçar Deus com devaneios sem sentido" - De facto, quanto mais cortava relações com os mortos, mais se ambientava aos costumes dos vivos. Apreciava a companhia de Willard e Nicholas, a maneira como viviam tranquilamente, em linha recta, sem desejos de fazer o mundo pagar pelo que lhes havia tirado. - "Por quanto tempo?" questionava o seu íntimo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Os Olhos do Sul: II - III (Intervalo)

Dois primos cajun, em passeio com a família pelo Arkansas, acordam sobressaltados pelos eventos da noite passada:

- "Bo' dia Dud, iss' é que fou uma confusion des diabes onté..."
- "Né outra cous' sena' verdade. Aquel' sujeite trouxe o Inferne con el´; Or' vide tu que pega des moçes e quita-lhes a vide sé mais... num se faz."
- "...falo'-me Marie que le matou ca force du demón."
- "Da policie sai' que vai un pendurad' e no últime, assomad' à pont' daqui, que lo sufeco' con óil."
- "Avec huile?! Mon dieu..."
- "É verdad' mon ami... Fue horrível: lo turturrou par l'informaçon e quand na' le diz, le poen óil p'la boca."
- "Nes pa... l' éncontraron les malandres?"
- "Non. É Piore ils pensen que fue un só..."
- "Le fin é próxime, prim' Dud... Tres Próxime"

terça-feira, 24 de julho de 2012

A cem metros, Sereia!


Cá estamos filha da puta! Outra vez a fazer a mesma merda… caralho pá! É que não vales mesmo nada, mas quem é que te disse que a estupidez era arte?! Ai é? É isso que queres fazer?! Fazias melhor figura se te matasses pá… ao menos poupava nas dores de cabeça.

Dizes que és diferente e a única diferença é a cara. De resto, não muda! Vulgar, puta e oferecida à carneirada… e eles para te aturarem… deves julgar que andas a vender peixe de outra carne. És a mesma triste figura hoje que eras há 10 anos e por tua vontade vêm outros tantos. A sério? É isto? És isto?

Cabra cega e parva, não consegues tentar sequer?! Logo havias de ser assim, ordinária. Até a porra da outra, que nunca acertou uma de jeito, teve razão quando falou de ti! Atitude de merda, vai-te encher de moscas… fodam-se as tuas manias e as tuas taras! Vives delas como o porco da porcaria! Epá, desaparece, mesmo! Deste mundo, disto tudo. Cai fora. Oxalá te fodas e te partas toda.

Estou para ver o que sai desta vez. É que podias morrer longe, mas não! Já não há quem te ature, porra… Mais o quê, caralho?! Queres mais? Tens asas? Então deixa-me da mão, põe-te na puta que te pariu! Isto, aquilo e o outro… o quê?! Já te disse e devia ter dito, queres ser assim, mata-te! Davas um enterro com mais pinta que a puta da fronha que mostras todos os dias da tua vidinha…

E agora?! Lê isto, pensa e mete a cabeça a trabalhar… Pois, não dá, não soma e não faz. Cada minuto que passo perto de ti faz de mim um estroina, desses onde tu gostas de chafurdar… tudo o que tocas desfaz-se em porra de pedaços, fodes tudo pá! Olha para isto. É tudo para ti. Um manguito pequeno demais para o merecimento da tua existência. Um exercício de onanismo em retórica de arrepiar caminho. Volta para o inferno de onde saiste e leva outro como tu para lá. Fartinho disso já eu estou.



Os Olhos do Sul: II - Correndo Com o Diabo ou A História de Tommy Livingston

Calças de ganga Lee 101, T-shirt velha dos Doobie Brothers, botas Chippewa e um casaco de cabedal castanho que nem sequer era dele - "aqui estão os seus pertences" - um relógio Tag-Heuer, literalmente parado no tempo, uma carteira com a carta de condução, 40 dólares e o bilhete de autocarro Interstadual. A roupa ficava-lhe ligeiramente larga - por tudo o que perdera nos últimos cinco anos o peso havia-se transformado em músculo - o relógio já não o servia. - "Tenho tempo de sobra, queres comprá-lo?" perguntou a Gutterson. O guarda fez-lhe sinal para se calar e passou-lhe uma nota de 10 para a mão.

Tommy "Crow" Livingston imaginava tudo isto a acontecer, enquanto esperava do lado de fora da cadeia. Acompanhava com o olhar cada passo de Kurt Stone, media-o e ansiava pelo seu confronto. "Meteu-se com o gang e o gang vai deixá-lo no lugar", pensou. À saida de Huntsville, Tommy e três outros motards assistiam ao caminhar de Kurt Stone em direcção ao terminal de autocarros - aos passos lentos e pesarosos, ao ar perdido e destanciado da multidão - "Este tipo parece um zombie! Podemos apanhá-lo mesmo aqui no Texas e despachar a coisa antes do meio-dia!" disse Tommy em tom de chacota e logo ouviu resposta, "Vais fazer como te mandaram e calas-te antes de sequer pensares em abrir a bocarra! Este tipo tem levar com a marca dos Steer Kings e isso acontece onde deve acontecer à hora em que os adultos decidirem, comprende?".

O galgo cinzento lançou-se pela autoestrada e os quatro motoqueiros abandonaram a perseguição, a próxima paragem era em Texarkana, Tommy sentia o sacudir do colete à medida que a velocidade aumentava. O Presidente tinha encarregue Aiden "Turk" Moss de "interceptar um certo ex-condenado e passar a mensagem de que os 'Kings não esqueciam nem perdoavam", tudo aconteceria o mais longe possível de casa. Com ele seguiam mais dois veteranos, Bo "Diddley" Jones e Austin "Deuce" Hill, para iniciar o "petiz" numa missão de honra.

Junto do terminal a multidão dispersava e apenas Kurt e mais duas pessoas se mantinham sentados. Turk e Bo avançaram pela retaguarda enquanto Tommy e Deuce se picavam com as motas pela frente, em jeito de manobra de distracção. Rodando em círculos, enervavam visivelmente os dois homens junto de Kurt enquanto este se mantinha sentado, impávido.  Tommy estava tão compenetrado nas manobras que mal ouviu o tiro para o ar. Diante dele, o revolver fumegante do agente Morris aconselhava prudência, enquanto o seu parceiro, Duff, apontava a Deuce - "O espectáculo acabou rapazes, está na hora de partirem na direcção do sol poente! Não os quero voltar..." -

«Clic»  

- "Lamento interromper, mas caso não tenhas percebido, isto foi o cão. E a seguir vem o gatilho. Em que direcção achas que vamos?" interrompeu Turk, surgindo por trás do polícia. Logo Deuce aproveitou a deixa - "Na da bagageira! Ah!" gritou, rindo-se. Como dois cavaleiros pelo asfalto, Tommy e Bo resistiam contra a saraivada de água que caía em Texarkana. Há vários minutos que não ouviam as pancadas dos agentes Morris e Duff, a malfadada escolta. Encafuados como malas velhas, enquanto Turk e Deuce comandavam o autocarro.

A tarde passou a noite e o dia não se deixava ver, nem para a frente, quanto mais o fim. Nas palavras do último para Kurt - "Foi uma viagem atribulada, mas só agora começámos". O jovem aspirante pensava no que aqueles dois iriam fazer... sair da cidade era obrigatório, mas o plano era não haver plano.

Perto de uma zona florestal, já nos limites da cidade, a caravana pára sem aviso. A porta abre e Turk, seguido de Deuce, saem de mãos na nuca. Bo e Crow nem tiveram tempo de reagir. O refém havia tomado controlo da situação, frio e distante como sempre, segurava a arma no escuro. - "Cheguem-se para debaixo da luz do candeeiro, é já ou não há depois!" ordenou assertivamente, chegando-se para as motas. Sob ameaça de tiro, o gangue assistia à pilhagem dos seus pertences, tal como no velho oeste. Kurt segurou as correias da bolsa e atou-as às costas como uma mochila, em seguida profere em tom solene - "Gostei deste bocadinho, especialmente por ter sido curto. Até sempre meus senhores." e dispara seis tiros do revolver de Deuce.

Incrédulos, os cinco homens olham uns para os outros em choque, voltando a mirar-se. A perícia de Kurt com as armas de fogo nunca tinha visto melhores dias, ainda que infelizmente para ele, também não tivesse visto piores: os tiros falharam o alvo, todos eles. Recorrendo ao mais básico instinto animal, o condenado foge à desvantagem, lançando-se em corrida para o mato em redor. Encharcado e amedrontado, Tommy mal se conseguia mexer, enquanto Turk fugiu pelo mato deixando o resto do gangue para trás.

Alguns segundos depois, Tommy, Deuce e Bo entraram no mato. Já no negro da escuridão e  percorrendo o lamaçal, os três homens resistiam ao medo e ao frio. Passo ante passo, tacteavam as árvores e procuravam luz no luar - "O que é aquilo?!" exclamou Bo, referindo-se ao barulho metálico que vinha da direita. Balançando como um pêndulo, avistaram o cadáver de Turk pendurado num tronco, enforcado na corrente da mota. - "...dass! O qué isto?!" gritou o jovem rufia, virando-se para trás em horror. Antes que Deuce pudesse reagir, Kurt sai da escuridão e atinge-o na nuca com um tronco bicudo, desferindo de imediato um murro no nariz de Bo. O estalar do osso do nariz de Bo propeliu Tommy para correr como os pés deixavam, enquanto as pernas aguentassem. Kurt havia-se tornado na figura do medo desesperante em pé ligeiro.

Escorregava e trepava, saltava e tropeçava conforme o terreno ajudava, mesmo sentindo a vida a fugir-lhe a largos metros e em passo largo. A sua única esperança era chegar à South State Line Av. e atravessar a estrada (na verdade, cinco vias de trânsito), onde poderia procurar refúgio num motel. Atrás de si, ouvia os lamentos indecifráveis do seu companheiro, ainda agarrado ao nariz, inspirando o próprio sangue. Anos de bebida e tabaco pesavam na respiração como nunca e depois de dois minutos a correr, o ar parecia ter-lhes sido aspirado do peito. Ofegantes e sem sentido de orientação, percorriam a linha de vista à procura de uma luz, de uma casa, de um carro ou qualquer sinal de auxílio. - "Ele vem aí! Estás a ouvi-lo?" desesperava Bo. - "Por aqui! Vamos!" disse Tommy enquanto empurrava o colega, assumindo a liderança. Sem fôlego, corriam descoordenados pelo bosque, almejando uma luz ténue para lá do arvoredo. Já cegos pela esperança, escorregam num declive onde a chuva fez a terra abater. Entre o chão e a cara de Tommy apareciam um tronco e a pancada. Se antes se via mal, nesse momento as luzes apagaram-se.

Voltou a si depois de ter perdido os sentidos por uns segundos e ao seu lado, jurava que era a efígie de um demónio de olhos vermelhos, esmurrando furiosamente a carcaça sangrenta de Bo, levantando no ar pedaços de crânio e aquilo que parecia um globo ocular. Os dedos da mão, ainda dormente, tremiam agarrados à terra. "Também não me agrada este trabalho mal-amanhado... diz muito pouco da minha pessoa, mas vocês não vieram para conversar, pois não?" insinuou o demo em tom macabro, logo se levantando. Retira da bolsa uma lata de lubrificante de mota e abeirando-se de Tommy, sussurra-lhe ao ouvido "Ora, conta-me lá um segredo, passarinho".

Os Olhos do Sul: I-II (Intervalo)

- "Dizem que se foi o Justiceiro Solitário... E já estou à espera da comissão há meses."
- "Que estás para aí a falar?"
- "A minha audiência para o recurso! O meu advogado diz que um tipo à espera de execução há 10 anos tem mais hipóteses de perdão..."
- "E o que tem a ver o tipo do filme?"
- "Qual filme?!"
- "Na'tavas a falar no Cavaleiro Solitário (Lone Ranger) porra?!"
- "...Justiceiro! Vale agora a pena falar contigo! 'Tás bem é com a Biblia pá!"
- "É que nem te atrevas a invocar o nome do senhor em vão! Diz lá que filme é esse então..."
- "Na'é nenhum filme pá! É o gajo que 'tava há anos na solitária!"
- "...e é justiceiro porque tava feito com a mona?"
- "Epá cala-te e ouve! Chamam-lhe justiceiro, porque se passou no Tribunal e encavou os tipos que lhe mataram a mulher!"
- "Limpou-lhes o sebo?"
- "Nada disso! Chibou-se que tava feito com eles e começou a dizer que os conhecia e que mataram a gaja por gozo, tipo ritual motard..."
- "E os gajos vieram dentro, certo? E ele saiu."
- "Até que enfim! Foi isso mesmo, percebeste? O Juiz queria-os dentro e o Juri também, por isso ninguém se incomodou muito."
- "Justiceiro...? Se me 'tivessem quinado a maria não havia justiça neste mundo para os salvar, nem ta'pouco a mim no outro. Era um bilhete de ida pó'Inferno, digo-t'eu".

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os Olhos do Sul: I - Rude Despertar


Cinco anos depois, esfacelado pela solidão e trucidado pela culpa, Kurt caminhava lentamente pelo corredor. O guarda Petterson seguia-o, não o escoltava, seguia-o. Em passo firme e pesado percorriam o corredor. Grades e gradeamentos multiplicavam-se em paralelo com a parede de betão, friamente novos para ele, que só tinha conhecido o pátio e a solitária no cárcere em Huntsville. Queria dizer-vos que vi uma figura ou um vulto para o começar a descrever, conferindo-lhe qualquer misticismo barato ao  jeito dos filmes, mas quando Kurt surge no raio de visão é impossível não distinguir os traços à partida: estatura média; cabelo negro, tal como se duas vassouras siamesas tivessem procriado com um espanador; olhos profundos e castanhos claros; e a barba irregular, mas grossa em redor do seu maxilar quadrado, fugindo para o queixo. A prisão teria-o mudado por certo, no entanto seria a liberdade que lhe tomaria a alma.

"Os heróis morreram no dia em que o homem inventou a pólvora" - afirmou solenemente Thomas Hawkes na penumbra da sala de visitas. Os seus olhos brilhavam quase tanto como as correntes de aço que algemavam Kurt, continuando - "sabes que alguns membros dos Steer Kings estão a ser sugeridos para uma amnistia? O Governador vai a eleições e alguns nomes apareceram em cima da mesa. Sabemos que o teu tempo aqui está a chegar ao fim e seria um infortúnio que fosses procurar os tipos perdoados pelo Estado e, à boa maneira do faroeste, encontrasses algum sarilho que deitasse estes anos todos por água abaixo". Kurt ouvia impassível. Os seus nervos, como espasmos, reagiam violentamente,  ao escutar na voz do Marshall, o mais leve tom de paternalismo falso. Hawkes não queria saber dele - tinha outros planos e esta conversa, evidentemente pensada, faria parte disso. Como o mais frio dos assassinos escudava a raiva por trás de um exterior calmo. Todos estes anos na solitária aperfeiçoaram essa sua faceta, moldando-a irreversivelmente à personalidade.

"Nunca apanharam o Comanche, sabias? Estes tipos vão levar-me até ele... Não é pelas mães que vão passar a semana no cabeleireiro para assistir ao discurso do Governador na libertação dos filhos. Esses filhos... e essas putas que os lançaram ao mundo são capazes de estragar tudo o que temos feito, para manter o pobre coitado que paga os impostos descansado à noite. Tu cumpriste a tua parte e fizeste por trazer descanso à sua alma... agora é a minha vez e lidarei com eles da maneira que mais me aprouver. Não te metas no caminho, percebes?" Proferiu, firme, enquanto deixava cair as palmas das mãos sobre a mesa. 

Onde qualquer um via impassibilidade, Hawkes irritava-se com a apatia de Kurt. Não o conseguia ler correctamente, no seu mundo era imprevisível, talvez tivesse até sucumbido à loucura depois de anos fechado em solitária. "Naquele julgamento todos sabíamos que eras inocente. Foi uma farsa teres dito que estavas com eles... A justiça não era para ser utilizada a teu mando e não foste tu que a mataste, caso estejas a fritar conclusões nessa cabeça louca." - depois de uma longa pausa continuou "O teu tempo está a chegar ao fim e o Tio Sam quer-te num programa de protecção... Eu dei-lhes uma ideia: Vais sair daqui de mansinho, a um mês de hoje, vais encontrar-te com um sujeito em Arab, Alabama. Este tipo, que dá pelo nome de Gutterson, vai ajudar-te. Vais direito ao Centro Cristão de Arab e perguntas pelo Gutterson. Percebeste? Ele tem tudo o que precisas e no dia que saíres os guardas devolvem-te a roupa com um bilhete de ida no bolso das calças. Se me estás a ouvir: a vida é tua, faz o que quiseres." Seco e directo, terminou e levantou-se da cadeira, saindo da sala como se nunca tivesse lá estado. Kurt permanecia imóvel no escuro. Um, dois, três, quatro segundos e o guarda Petterson entrou para o acompanhar, de novo, pelo corredor e até à cela.

Uma luz solitária, um pequeno foco, entrava por entre as grades e reflectia uma forma estranha na parede. Meia-noite. Podia ouvir-se numa voz carregada, profunda e inerentemente bruta: "O que achaste dele hoje, amor?" - "Normal?! Não quero ser isso, já não sei ser isso! Estamos bem assim...", engoliu e decidiu, resoluto "Se é isso que queres, vou para lá, mas é «normal» que vá haver sangue... ele não está a contar tudo!". Em breve, o mundo voltou a sossegar, mergulhando a cela no breu. Kurt estava irascível, não conseguia manter-se imóvel no colchão, tantos anos depois a perspectiva de voltar a ver o exterior assustava-o. Não, não era isso. Tremia ao pensar num espelho, algures num motel, na casa de alguém ou numa estação de serviço onde contemplaria o seu reflexo a escassos metros de outro ser humano e teria de deixar se olhar como a um animal enjaulado. Na sua ideia jamais seria livre.

Os trinta dias seguintes passaram como os anteriores e os outros antes desses. As manhãs eram passadas a fazer exercício, primeiro na cela, depois no pátio. A aquele velho edifício era o local mais a leste do paraíso ao cimo da terra, tão permeável ao calor que era normal morrer-se por desidratação. Na sombra, o efeito de estufa era assustador ao início, mas chegar ao pátio ao meio-dia e ser atingido pelo sol ardente... provoca alucinações. Sarah apareceu-lhe nesse dia, ao cimo da barra de halteres "Estou tão orgulhosa de ti. Estes anos todos acabariam com qualquer um, mas tu superaste. Estás forte... olha para ti. Não tenhas medo de deixar isto, este desterro, este inferno. Há uma vida à tua espera, independentemente das promessas que fizemos, nada se esgota no sofrimento. Prova que és capaz de fazer melhor, parte a pedra e volta a ser carne." - Os braços doíam-lhe de tanto tempo suspensos no ar e o suor descia-lhe pela testa queimando-lhe os olhos. No entanto, segurava o haltere como se fosse parte do corpo. As paredes de tijoleira vermelha só lhe podiam tirar o ar, porque a tenacidade haveria de as transpor.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Ponto de Fuga: Epílogo

Dela sobressaiam os olhos, agora sem vida, vagarosamente cobertos pela bruma gélida que se abateu sobre a noite. Minutos como horas passaram, até sentir os músculos entorpecer, a respiração queimar-lhe no peito e a vida deixando-os lentamente. Não podia existir ali, ao lado do cadáver, sem se tornar um fantasma dele próprio e de tudo o que tinha vivido ao lado de Sarah: a sua cicatriz estava-lhe profundamente marcada na memória. Eram o universo um do outro, as possibilidades que por mero acaso temporal ainda não se tinham concretizado, os tempos presente, passado e futuro convergiram para este espaço e concederam-lhes a imortalidade.

Quando o sol se levantou e névoa deu lugar ao orvalho, a sua alma estava tão morta como o corpo dela, perscrutando o mundo pelos olhos incrustados nas cavidades negras de uma caveira pálida. Pelas veias corria-lhe um ténue fio de sangue e o peito empedernido pesava demasiado para se erguer, para voltar a ver, a sentir, a cumprir as regras básicas da existência a que todos os mortais estão adstritos à nascença. Um funeral não seria apropriado, não haveria palavras, rituais ou gestos de paz que pudessem apaziguar as suas almas. A violência da vida ecoa na sua morte, ensurdece o seu sentido e assume essa razão.

Há uma luz a guiar-nos durante o caminho que trilhamos, ela pode revestir várias tonalidades, cores e até formas, mas nunca deixa de nos acompanhar. No rescaldo destes acontecimentos, o seu farol mudou muito, no entanto só havia um caminho. Iria percorre-lo estoicamente, na solidão, na pobreza e no vácuo... e arrastaria outros para lá. Reclamaria as suas vidas para instar medo na espinha dos fracos de mente, impotentes para ver a luz. Ela estaria ao seu lado, até as estrelas se alinharem, como sempre esteve e nunca poderia deixar de estar, numa lei não escrita sobre a qual eram, são e serão - cabendo-lhes o céu que libertaria a tempestade que se seguiu.

O ponto de fuga é aquele lugar para onde convergem as linhas no horizonte, onde o profundo se perde e o todo se encontra. Somos todos pontos e linhas, que se apagam e pintam com a maior das facilidades. A fuga, o escape, demonstram o nosso significado: de onde vimos e para onde vamos. Em seis fases, Kurt e Sarah, descobriram o seu: primeiro o DESPERTAR, onde passam de um apelo inconsciente de escape para a necessidade e materialização do mesmo; em segundo o VEICULO, pois toda o movimento precisa de um corpo e de uma alma e o 442 confunde-se e impõe-se nos personagens, qual extensão do seu corpo e alma, oferecendo-lhes profundidade; seguidamente a PERSPECTIVA, em que são forçados a definir os seus limites e a sua distância, assumindo o desconhecido e para Kurt e Sarah o limite foi a sua relação, os dois coexistem no mesmo trajecto; para lá de meio o percurso torna-se emocionante e atinge o PICO, mostrando toda a sua beleza para os iludir; a quinta etapa a CONFUSÃO, levando os viajantes por atalhos, deixados à deriva afastados do real propósito e da sua força motriz; até à TRANSCENDÊNCIA, o final aparentemente amargo, onde passado o ponto sem retorno, os confronta com as suas escolhas, encerrando a verdade que tanto esperavam, para continuar a viver sem precisar de fugir.

Na realidade, o mais pequeno detalhe pode afectar-nos. Sem dúvida, no entanto é essa a pessoa que queremos ser? Não para o Kurt. Ele quis tomar as rédeas do seu próprio destino: escolheu a rapariga e conduziu o carro. Não fez a viagem perfeita, mas mais ninguém a fez por ele. Esta é a sua história e todos os outros são detalhes, pedras ou almofadas no caminho. Encontrou particular conforto neste pensamento quando, na prisão, rodeado por criminosos, percebeu que podia fazer valer esse tempo. Preparar-se para concretizar o que aprendeu na viagem com Sarah, tomando controlo, deitando as peças deste xadrez abaixo.


Kurt Stone voltará em: OS OLHOS DO SUL

Ponto de Fuga: ...Onde A Estrada Acaba (VI)


Recuperava ainda os sentidos lentamente e antes de sequer abrir os olhos, amargava o sangue ainda fresco nas gengivas. A porta da frente escancarada deixou entrar o bafo quente que me fez levantar de uma vez. Derreado e ferido no orgulho, receava agora qualquer estalo nas costelas, pelo menos aquele que me impedisse de chegar ao telefone. Teria de haver um telefonema. Não. Pregada à ombreira da porta com um punhal, num papel com o número, a mensagem estava entregue. Estes tipos eram negociantes à séria, para seguir à risca. -"Agora já não és tão esperto! Que queres? Queres a tua mulher de volta?" gritava do outro lado do telefone o Comanche - "Que manobra foi essa no Diner?! O teu trabalho é entregar o pacote! Queres entrar na folha de pagamentos, é isso?". Só me restava implorar e suplicar pela segurança de S., enquanto ouvia as suas provocações. Sim, a este ponto rezava para nunca ter acordado dos efeitos da droga e tudo isto não passar de um sonho febril.

Abri a caixa, finalmente. Continha um cachimbo, mas procurei dentro do embrulho e lá estavam os papeis, manifestos de carga emitidos pelo Estado do Texas. A minha tarefa era entregá-los ao Armazém na Alameda Avenue, aqui em El Paso. Deveria depois receber novos documentos e entrega-los em Red Rock, no Red Rock Motel, onde - "É ao fim da Main Street e CASO CUMPRAS TUDO À RISCA, até à alvorada de amanhã a encontras viva". Depois de tudo o que tomei por garantido, restava a estrada, essa terra prometida agora nossa salvação.

Pisei o acelerador e larguei a embraiagem, naquela fracção de segundo entre movimentos o 442 faz o mundo tremer até desaparecer numa nuvem de pó. A primeira tarefa afigura-se fácil e rápida, no armazém seguem, como formigas no carreiro, sujeitos de tez escura carregando caixotes dos camiões para a zona de descarga. "Boa tarde forasteiro. Faça favor de dizer." inquiriu o indivíduo à minha frente. Suiças e cabelo grisalho escapando-se por baixo do boné, baixa estatura e aparência afável ilibavam Harry de qualquer convivência com actividades criminosas. - "Fiquei de entregar pessoalmente estes manifestos de carga, onde posso encontrar o responsável?" mal acabei a pergunta já a resposta saia cuspida - "Vamos lá para dentro miúdo. O índio não gosta destes negócios debaixo de sol. Queima, se é que me entendes".

Aqui começam as complicações, aquelas tão inesperadas e indesejáveis quando a vida quem mais amamos está em causa: Os documentos estavam entregues, mas devido ao seu atraso, teria de entregar a cópia forjada ao camionista que me aguardava numa estação de serviço em West Odessa. Quando está tanto em jogo é complicado racionalizar para procurar a falha no plano e quando não consegues encontrar a falha no plano, simplesmente, falharás. Por muito que conduzisse como fugido do inferno, cortando curvas e batendo no vermelho mais vezes que menos, estava demasiado exposto.

O Shooter's Gas and Grill em West Odessa era uma paragem de camionistas no meio do deserto e tirando umas dunas a bons metros, bem como dois ou três poços de petróleo no horizonte, não estava rodeada por nada. Ora, não seria aqui que nos iam apanhar, no céu aberto e ainda à luz do dia. Seria já na noite escura quando investia a cerca de 200 kms por hora em direcção a Bastorp. Cansado e com mais olhos no relógio que na estrada, pensando nela, sofrendo por ela na angústia de não saber, deixado com a ideia de ter sido engolido por uma trama maior que nós os dois. Ao fundo piscam as luzes azuis e vermelhas: estrada cortada, fim da linha e todas as metáforas que não me passaram pela cabeça por ter encontrado naquele borrão de cor lá ao fundo a figura do desespero...

Pé a fundo no travão e o carro afunda e contorce-se no asfalto, em câmara lenta, a suspensão desce junto às rodas, inclinada de sobremaneira para a direita e centrifugamente guiado pela traseira encontro-me paralelo à barreira policial... largo o travão e piso o acelerador novamente para ganhar aderência e enfiar a toda a velocidade pela estrada de terra batida que desviava do caminho. A poeirada levanta em nuvem, embatendo nos faróis dos meus perseguidores. Forma um efeito de cortina, encadeando-os para os cegar em seguida e logo que a transpõem mergulham no breu. Despistei-os, mas estava demasiado perto de Red Rock para arriscar o regresso à estrada principal. Circulando erraticamente pelos trilhos do gado e caminhos secundários adjacentes às quintas da vizinhança, seguro-me ao volante, ignoro os solavancos e procuro a cada curva o Red Rock Motel.

O pórtico lia em letras de neon fundidas "Motel", só isso. Rachas no pavimento e as marcações do estacionamento secas e desvanecidas não logravam distrair o viajante do ar de abandono do edifício destruído. Em redor não se ouve vivalma e corridos alguns minutos decido aventurar-me. A luz do único poste lá fora passa em feixes de pó pelos buracos na parede, buracos de bala aparentemente. Passo a passo percorro a sala até tropeçar e sentir a picada na cabeça, ou talvez tenha acontecido ao contrário. Derrubado, volto a mim apoiado nos destroços de uma mesa de café e levanto a cabeça para ser surpreendido por uma sombra de uma pessoa, estática na ombreira da porta.

- "Quantas estradas tem um homem de percorrer... até admitir que está perdido?" proferiu a figura cadavérica do Sargento Thomas Hawkes e continuou, enquanto eu assistia atónito e em choque - "Sabemos quem és tu Kurt Stone, mas quem és mesmo tu? Um agarrado a querer subir na vida? Trabalhas para o J.? ...sejas lá quem fores tenho a agradecer-te por esta operação. Foste o sabotador... depois do que se passou aqui da última vez o Capitão Harding não queria arriscar a vida de mais um infiltrado. Sim, o mesmo que deixaste apeado naquele Diner em Benson: Elrod. Há semanas que sabíamos do vosso negócio da Califórnia, só nos faltava poder de fogo. Os manifestos que andaste a entregar foram a chave para voltar a por estes tipos na choça." disse enquanto adoptava uma postura altiva e arrogante. Sabia que me tinha usado e da injustiça que pendia sobre mim e, principalmente sobre S. - "Onde está a rapariga? ela não tem nada a ver com isto! Deixa-me vê-la!" insisti, agarrando-o pelo braço para ser derrubado com um murro no estômago em seguida. - "Não me toques!" - mais calmo, ajeitando a manga da camisa, confessou: - "Lamento ter de ser eu a dizer-te isto, mas ela já estava morta quando chegámos, Eddie "O Comanche" executou-a quando confirmou que tinhas feito o trabalho...".

Nesse momento entraram dois agentes e seguraram-me pelos braços, enquanto Hawkes me olhava impassível, a sua cabeça calva e as linhas do rosto como rastos de navalhas, movendo-se e dobrando-se. Ele falava, conseguia ver os lábios descendo e subindo, numa estranha dança hipnótica. No entanto, não o ouvia. Levantaram-me do chão como se pegassem numa mala de viagem, arrastaram-me até à rua e diante de uma maca, uma qualquer maca como se vê nos filmes, alguém destapou a coberta e lá estava, inerte, sumida e sem expressão, Sarah Anne Ralston: o princípio e o fim das minhas viagens.

Ponto de Fuga: Datura (V)


 
De Las Cruces a El Paso não demorámos uma hora. Até que enfim, o Texas, aquele baluarte histórico do sudoeste americano. A fiesta nunca pára deste lado do Rio Grande e S. queria ficar uns dias para conhecer a cidade e absorver aquela cultura tex-mex. Afinal de que serve correr o mundo se não paramos um pouco para o sentir avançar também. Como uma força imparável que percorre o asfalto, deambulando sem rumo aparente para os que não percebem porquê, os que vivem no medo do seu isolamento ou para os que, simplesmente, não acreditam que haja algo no fim desta jornada.

Nos arredores da cidade por entre cactos, nuvens de poeira e pedregulhos, avistamos guarida à lei da estrada. O Beverly Crest Motor Inn é um daqueles locais hitchcockianos, prende-nos desde que o avistamos na estrada, fixando-nos no seu mundo próprio: Três pilares de aço amarelos seguram o seu logotipo de neon em forma triangular; ao lado o edifício da recepção em tijoleira do qual crescem cinco vigas para suportar o avançado que dá guarida ao drive-through; em seu redor ficam os quartos, numa correnteza de casas amarelas dispostas em U; e logo atrás, majestosas e imponentes, as Franklin Mountains. - "Piscina, Televisão, Rádio e Telefone... O nosso pedacinho de céu!" exclamou S., ironicamente, ao ler o sinal.

Parámos o carro diante da porta 19 e entrámos. O quarto teria decoração original dos anos sessenta, hoje substituída e renovada, mas manteve o espírito acolhedor. Uma casa-de-banho, uma televisão e uma cama: - "Que surpresa... Não se parece nada com a brochura". Ao olhar para o carro, sorrimos um para o outro - não havia bagagem a carregar - faltava apenas a "encomenda" de J., esquecida na bagageira e irradiando curiosidade. Cúmplices, deixámo-la ficar no cofre, agora era altura de voltar ao volante e partir para as ruas de El Paso.

No centro da cidade, por onde Wyatt Earp, Billy "The Kid" ou Pancho Villa caminharam, passeamos pela famosa South El Paso Street. Ao fundo da rua, existe a ponte Santa Fé que liga a Ciudad Juarez, México. Ao longo do passeio, os prédios antigos partilham a herança cultural latina. Por toda a rua persiste a ideia de nos encontrarmos num colorido mercado ao ar livre. É possível olhar para dentro das lojas e ouvir o dono gritar "Pásale!". Um misto de sabores e aromas paira no ar e tanto cowboys como mexicanos frequentam os passeios lado a lado com homens de negócios e turistas. Por muito que o cenário intrigasse, impunha-se contra a minha natureza: não sou turista, falta-me paciência e inutilidade. Como qualquer homem simples desfaço-me do frete e vou à procura do bar mais próximo. Tragam-me um balcão de madeira, matrículas pregadas à parede e a cabeça de búfalo mais hedionda de todo o Texas que abro lá conta. Ainda assim parece ser impossível de encontrar tal taberna em El Paso: é tudo demasiado ordeiro e para qualquer lado que me vire, eriçam-se os pelos das costas como se andasse a ser seguido.

A noite vai caindo nas montanhas e voltamos ao Beverly Crest Motor Inn, cada vez mais longe da folia da cidade, os faróis depressa se tornam uma candeia na escuridão e o roncar do 442 o único barulho de fundo em quilómetros. Empurro a cassete de novo no leitor e suavemente ouve-se o primeiro solo de "I Can't Tell You Why" dos The Eagles. S. encosta-se a mim, trazendo uma sensação de paz e de que tudo está bem com o mundo mais uma vez. Em breve surge à vista o nosso oasis luminoso e, depois de carregados os sacos com vestidos, bugigangas e até um sombrero, fechamos a porta do quarto.

- "Querido, quero experimentar uma coisa contigo, só tens de me prometer que não te vais chatear, ok?" confidenciou S.
- "Nunca me pediste autorização para nada, estamos a falar do quê mesmo? Ah e já sabes que me vou chatear. Vais ter de me convencer com muito jeitinho..." enquanto me debruçava para a beijar no pescoço, para logo ser afastado.
- "Pára sossegado e ouve lá. Lembras-te quando passámos naquela loja onde até comprei aquele vestido verde? O irmão ou primo - não sei - da dona vendeu-me estas raízes... sabes o que é?"
- "Não faço ideia, mas não deve ser para fazer chá, não?" disse, impaciente.
- "É erva do diabo. Antes que digas qualquer coisa...";
- "Erva do Diabo... Que queres que diga? Que não é nem um bocadinho perigoso demais? Que não morrem pessoas à conta da brincadeira?"
- "Ouve! Tive uma colega de quarto na faculdade que estava a tirar farmácia e fez um trabalho sobre esta planta. Experimentou e tudo... e ensinou-me a preparar uma dose.";
- "Mesmo assim S., para quê??"
- "É especial para mim... sabes que acreditavam que a erva do diabo tinha propriedades exóticas. Como que revela o teu destino. Queria experimentar com alguém que fosse mesmo importante para mim...".

A conversa durou mais algum tempo, ainda que tivesse cedido antes. Não conhecia os efeitos desta droga, fui deveras incauto. Sobre S., não consigo sequer imaginar que demónio a terá possuído para sugerir uma coisa destas, quanto mais levá-la avante. Eventualmente, acabámos por beber o chá com uma dose mínima de raiz de Datura Stramonium, segurando-me pela mão e acariciando-me durante todo o processo. A minha relação com as drogas é pacífica, excepto com aquelas que mordem e deixam marca. S. encarava esta experiência como uma viagem de auto-descoberta, uma demanda pelas respostas do nosso íntimo, enfim, conversa de hippie... Não posso, no entanto dizer que não teve os seus momentos agradáveis. Enquanto esperávamos pelo começo da nossa viagem mística, deitámos-nos sobre a cama e... devo dizer que nunca tinha sentido da parte de alguém uma entrega física e emocional tão intensa.

Não sei o que aconteceu depois, falhei a curva, abri os olhos, pestanejando e coçando-os, mas por mais que fizesse não conseguia voltar ao quarto. Estava num quarto diferente, onde o papel de parede era verde tropa, os quadros representavam cenas clássicas de caça e, talvez por estar ainda confuso, tudo o resto parecia ser de outro tempo. De outra era. Levantei-me, combalido, da cama de dossel e fui assaltado por uma sensação de medo extremo, não conseguia ver dois palmos em frente do nariz. Estava de dia, pois via luz a entrar pelas janelas, no entanto esbarrava contra uma barreira de escuridão que emanava de mim. Andava, desorientado, pelos corredores, chocando contra armários e paredes até cair estatelado no chão.

Arrastei-me até ao fundo do corredor, apoiado na ombreira da porta, devolvendo-me à verticalidade. Este quarto era, por sua vez, diferente dos outros. Parecia o Berverly Crest Inn, mas situava-se na mesma casa onde eu estava. A sua decoração era de meados do século passado, onde S. se quedava diante da janela, imóvel, no beiral. Clamava por ela sem obter reacção. Queria ser a resposta, ardia de ansiedade pelo fim desta viagem: - "Podes dizer e achar que não sei o que vai ser acontecer daqui para a frente. Se ficaremos juntos, se conheceremos outras pessoas, até se nos vamos esquecer do que fomos um para o outro. Eu sei quem sou. Sou o tipo para ti, o tempo passará e todos os dias serei essa pessoa. Tu vais saber-lo. Podia pedir-te agora, que tens dúvidas, para te lembrares disto, mas tu sabes que não tenho falta de memória. Não há alturas certas para sentir... quando perceberes o que te digo hoje será o primeiro dia da minha vida." confessei-lhe apaixonadamente".

- "Diz-me quem sou eu. Quem é o Kurt?" a resposta veio numa explosão de luz. Ofuscado, tomei o golpe por baixo do ombro e em seguida outro pelo peito. Ouvia uma voz rouca, estranha, gritando-me para me levantar: "horas de acordar, pinga-amor!" e a voz continuou, pontapeando-me pelo chão.
Encolhido no canto do quarto, atrevi-me a abrir os olhos: um sujeito esguio, de barba de várias semanas e com um aspecto deslavado, mirava-me, fazendo um esforço para não se rir mantendo a postura, intimidativo. Usava um colete de cabedal negro, nas costas figurava uma caveira de boi com uma coroa pendurada pelo corno, lendo-se acima Steer Kings. S. não se avistava em lado algum e eu estava nu, fazendo de saco de pancada para um motard. As minhas piores expectativas confirmaram-se: - "Temos a tua chavala! Onde é que está o caixote que apanharam daquele fuinha do J.? ...não precisas que te faça um desenho, pois não?".