segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Otário


Bem, é meia-noite e existe um sujeito num prédio abandonado, algures a luz da sua gambiarra ilumina paredes descarnadas em tijolo e cimento. Um rádio toca lá no fundo de um quarto inacabado e tudo se ouve em chuva electrónica. Ele queria ir a todo o lado, mas não vai a lado nenhum.

Ninguém vem falar com ele e onde está os segredos ressoam pelas paredes mais nitidamente que o velho transístor. É da janela que vê. A ti. A mim. Esgrimindo mentiras em verdades disfarçadas de segredos. Nós somos tudo menos o aspecto limpo e bem vestido que aparentamos. Não interessa o que escondes debaixo do cabelo. Ele já viu. Tantas vezes.

Quem és tu? O que vi eu? Inventei eu uma mentira ao julgar-te diferente? Aquela que tantas vezes proferes sem querer saber se eu sei. Di-la tornando-a verdade?

Na insignificância ele vê-nos aos dois. Fingindo não nos importar. Mas será assim? Um bluff glorificado… Depois de tudo e do que devia saber, era de esperar que acabasse de outra maneira, mas quero pagar para ver... enquanto ele olha e te conhece pelo som dos passos, cada vez mais distantes, para não voltar.

sábado, 13 de novembro de 2010

Homens Invísiveis


“People who are homeless are not social inadequates. They are people without homes.” - Sheila McKechnie

Os faróis que iluminam a estrada não me procuram e saio-te ao caminho como uma aparição. Não és tu que vejo à claridade. Só quando as luzes se apagam te revelas no frio cá fora. São expressões feitas, onde à tristeza sorris cinicamente. Assim te enganas, nos dias em que o calor não se sente e se gela a alma.

E agora sei que te vou perder por tudo de bom que tenho, sem nada para pedir. Por tudo o que de mau há em ti não serei um mendigo. Não quero entrar, só procuro um abrigo. Não me olhes caído sobre uma arena maior que a tua vida, não receies pelas minhas feridas, pois são só minhas.

Toca-me e sentirás a preto e branco, cenários tão coloridos, que a tua vida te parecerá interessante em comparação. Como se olvidasses o ralo, deixa o veneno transbordar: quero afundar-me nas águas do remoinho, pois à deriva sinto-me a sufocar.

Porque pensas que desisti de viver? Porque te sentes tão afortunado? Sabes se estou aqui realmente? Ou sou alguém quem julgas conhecer?

Sabes? Uns dias por não ter e, acima de tudo, porque é tão fácil esquecer e ser como tu. Acima de tudo, porque se torna tão difícil viver, em consciência, com alguém que não quis ser.

Passarás por mim mais uma vez, iluminado, sabendo que sofri e perdi sozinho. Passarás amanhã nestas ruas vivas, com os náufragos do novo mundo, sem sal nas lágrimas para chorar. Há uma escuridão no caminho, deambulando na noite, que é o meu lar.

sábado, 30 de outubro de 2010

Encostado às Cordas...


Mesmo assim não desistirei de uma luta que tu sabes que nunca irei ganhar,
Contínuo, incessável e urgente, assim é tudo o que a ti me faz amar.

Não sei mais parar, nem ainda assim, alimentar o que nos une de separados que estamos...
Foste o mais árido dos desertos ou o mais vasto dos oceanos,
Perdi-me em ti, sabias?

Sonhei com esses dias, vendo-te feliz, leal e permanente,
Por momentos partilhei-os contigo, sem medo, numa alegria inocente.
Mas, há uma maré nos assuntos do Homem...

De onde deriva tanto a minha desgraça como a fortuna, levando-te para um além,
Desaparecendo e voltando na rebentação, em desdém,

É tão mais fácil cair no sono quando estás a sonhar comigo,
Talvez por isso nunca tenha verdadeiramente adormecido.
Como será acordar contigo?

Eu, pedindo abrigo numa terra sem história,
Tu, um mar sem memória,
Que forte é esta ilusão...

Sem ritmo ou afinação, uma bela e um senão:
Abre os olhos! Eles não me verão.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O rio de sangue

Perder o temperamento nunca fica bem a um homem bom...
"Não, deixa a curva voltar".
Vê-se o calculismo das pessoas nessas alturas. Conhecemos-nos na tensão e quando cada partícula clama por violência.
"Sim, cede à justiça sangrenta. Agarra-os pela jugular e rasga-os da mentira. Olha para o sangue a jorrar... que visão irónica, pois quem derramou o primeiro sangue foram eles. No seu contínuo embuste. Matai-os a todos! Pois te ordeno".
A sombra da traição é implacável quando cai sobre o homem justo. O ridículo usa muitas faces e muitas vezes o ridicularizado jaz caído na lama, cobrindo o semblante. Não que exista maior gáudio para os fracos de espírito do que a queda de quem se tenta, desesperadamente, manter de pé. A face de quem se recusa a mergulhar na ignomínia não será encoberta e desfaz até o mais cínico dos falsos.
"Cometeste um erro. A humanidade não merece o teu lado humano. Voaste para lá do sol antes do tempo. Não te deixes condenar ao esquecimento, alheio à tua própria natureza. Ordeno-te o assassínio. Eles são um exíguo sacrifício ao Minotauro. Ordena-te ao assassínio. A besta o exige. O nono círculo do Inferno se reserva aos traidores."
E assim, termina uma odisseia malévola, com o abandono de tudo o que é bom e puro, dando lugar à tormenta na costa tranquila. No entanto, não estaria certo roubar água ao Oceano, pois que para esses há, de facto, mais terra que mar...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Canção do Caos


Chaos often breeds life, when order breeds habit - Henry Adams

Do alto das tuas muralhas me observas cá em baixo, onde te aguardo no abismo da luz,

Entre reflexos de incandescências voando em espiral. O vento é negro e encandeia-te o olhar, desfazendo-se em brumas... sequioso o soturno respirar te envolve a índole,

Ouve o trote do meu áureo corcel.

"Acorda do teu transe e sopra o escuro até ao luar": ressoam os passos deste hipnótico cavalgar.

Conversando sem sentir não irás longe.

"Acorda e deixa-te viver", sentindo na minha fala um brilhante sibilar... vem comigo nesta estrada de nebulosa,

Anda... sem recear.

"Acorda neste celeste despertar"... Escorrega para a espiral e balança o meu eixo, sacode as fundações do teu soturno cativeiro...

Cura o sono e deixa a febre assomar.

Na companhia da morte passam Éons em minutos, foge da prisão astral, encontra em mim a tua força vital, e subiremos juntos este eterno rio de luz.

Há espaço na esperança para nós: púrpura, vermelho, carmesim até acenderes a chama - Há tempo na ventura para nós: negro, cinzento e branco respiras ao nos desfazermos no ar.

Somos absoluto no relativo, pairando sem gravidade, numa pureza sem sentido. Uma luz no universo, tu és o calor no meu peito e eu o espelho do teu acordar. Unos estaremos enquanto o destino nos quiser separar. Morremos para viver, renascendo numa ideia em que sonhamos estar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Deus Ex Machina


Os céus caem e o sonho desfaz-se,
sou hoje tão vazio como tu,
não há outra face.

Sós,

Cavalgámos o trovão,
enquanto o tempo nos libertou,
tão breve como um relâmpago.

carregamos

Estas linhas que te encontrarão e
mostram o símbolo da tua traição.

a

Qualquer sombra de penitência verei um embuste,
próprio da tua esquálida natureza.

Cruz

Da ironia de nascer para perder,
o pior é saber que tudo assim continuará,
o sangue torna-se agora electricidade,
e isto o meu túmulo branco de Agra.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Austrália


Descobri o calor debaixo do sol ardente,
do outro lado do mundo nessa terra nua e selvagem como a serpente.

O dia ergue-se sem pejo sobre uma linha verde e sente-se vida a ofegar no seio da floresta,
levada nos braços da montanha à garganta do oceano fluindo por uma fresta,

Passam anos por riachos e ribeiros em dias de monção,
quais aguaceiros alheios a um sem fim de Verão.

Uma gruta escondida atrás da sua nascente perdida,
desce a uma praia deserta,
banhando o horizonte até onde o grande coral desperta.

Quero provar o sal da alma neste fugaz paraíso,
sonhando para me encontrar num interminável sorriso,
onde o murmúrio do ocaso é o doce soçobrar de tardes sem igual,
segredando pelo céu o caminho ao mistral.

Esqueci na noite densa,
libertando-me da minha pertença,
pois foi este solo que me cultivou de passagem,
suave e sem pressa, porque a vida é uma viagem,
a que quis fazer,
navegando, Austrália, para te ver.

Aos
navegadores portugueses que em 1606 reconheceram a existência deste continente,
Luís Vaz Torres e Pedro Fernandes de Queirós.