domingo, 3 de abril de 2011
Da Rússia com amor
era uma celebração, uma Epifania,
nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
descias numa vertigem a escada
a dois e dois, arrastando-me
através de húmidos liláses, aos teu domínios
do outro lado, passando o espelho."
Arseny Tarkovsky in. " 8 ícones " assírio & alvim
segunda-feira, 14 de março de 2011
Amanhecer Sangrento em Red Rock Hills
Um som agudo e perfurante no altifalante irrompeu pelos ouvidos do comando da Polícia de Bastorp County, para logo em seguida se desfazer em ruído morto… a chuva caía em Red Rock Hills. Estavam presentes o comandante Joe Harding, os tenentes Watts e Bufford e a operadora de rádio Layla Moore. Todos sem excepção sabiam o que aquele blackout electrónico significava: o Detective William “Billy” Gaines estava comprometido…
Há meses que o Detective Gaines trabalhava infiltrado no gang de motoqueiros a operar no condado. Relativamente recentes na zona, estes arruaceiros de bar procuravam subir na vida “fiscalizando” a mercadoria dos camiões que saíam da Interstate 75. Eram chefiados por um sacana feio, porco e mau, de nome Don “The Ratchet” Miller. Sob a sua liderança, os “Steer Kings” como se chamavam, duplicaram o número de arruaças nocturnas e sextuplicaram a percentagem de assaltos violentos no Condado.
Nessa noite, o trabalho de Billy chegaria ao fim com a apreensão do núcleo duro do gang, que festejava em plena pandêga no "Red Rock Motel", depois se terem apoderado de um carregamento de oxicodona seguindo para distribuição farmacêutica em Dallas. Sequestrando o camionista nesse processo.
Billy havia informado a polícia da sua localização e aguardava apenas a confirmação de "The Ratchet", sobre a localização da droga. Com a dança macabra de álcool, violência e deboche, Billy pressiona o líder...
- P'ra quê a sede de informação puto?! 'tás a querer mais qua tua parte é?! - vociferava o sujeito grandalhão, já com a veia da testa a pulsar por entre o suor e sebo que lhe caíam do cabelo.
- Nada disso! Chibo é que na sou! ...dass 'tou a tentar ajudar... e se nos apanham aqui ca "cena" tamos lixados! Porra que tou nervoso chefe! - retoquiu Billy numa actuação digna de Óscar.
- Cab... deste maricas! queres tomar conta da cena vai buscá-la a estes gajos todos! - gritou, apontando para a horda de arruaceiros que povoavam o quarto 10 do Motel - bebe esta m... antes que ta parta na cabeça - e terminou enfiando no peito do Detective uma garrafa de Jack Daniels, com tanta força que lhe partiu o microfone.
Segundos depois, Joe Harding dava ordem ataque aos 5 carros patrulha que aguardavam sorrateiramente nas imediações do "Red Rock Motel". Para este polícia frio e calculista, Billy estava em apuros, talvez até morto e tudo indicava que havia vestígios da droga no Motel. Facilmente poderia ligar a mesma ao camião roubado e como bónus, Ratchet cumpria prisão por uma série de crimes, desde roubo a homicídio. Agora que estavam bêbados, drogados e relaxados seria a melhor hora para os apanhar.
- Dá a ordem Layla! Vamos para lá! Watts, Bufford... tragam os coletes. - comandou Harding em tom seguro e confiante.
Já no estacionamento do Motel, o Sargento Hawkes liderava a operação - É a polícia! Deponham armas e saiam em fila indiana com os braços na nuca! Caso não cumpram em 5 minutos, serão invadidos e forçados a tal!
- Agente Mullins! Preparem-se para atirar caso estes atrasados se armem em espertos. O primeiro que sequer mexer os braços ou começar a correr come chumbo! Entendido? - comunicou o Sargento ao subalterno.
Lá dentro, Ratchet ignorava por completo quem era Billy e encontrava-se numa fúria cega, arremessando cadeiras, mesas e até membros do gang que lhe aparecessem à frente - Rapazes, irmãos! Fod... esses filhos da p...! Cara... que volto p'ra choldra. Ficam aqui 6 de vocês enquanto eu, o Billy e o "Crazy Earl" lhes damos calor lá de cima, tudo o resto sai e baixa a cabeça lá fora!
Como indicado, 5 membros dos "Steer Kings", deixam o motel de mão na nuca, ajoelhando-se no estacionamento por ordem da polícia. A chuva caí fria e quase invisível na noite escura, agentes e criminosos só dão por ela quando, progressivamente, lhes encharca o escalpe.
Os polícias irrompem em direcção ao grupo, numa tentativa de os algemar, quando do interior do quarto saem disparos em rajada, abatendo o agente Mullins que seguia na frente, deixando todos os que o seguiam sujeitos à segunda vaga de disparos. Automaticamente e antecipando o fogo de cobertura da segunda unidade policial comandada pelo Sargento Hawkes, Ratchet e Crazy Earl abrem fogo. O Sargento que antes parecia implacável, permanecia de cócoras abrigado atrás do carro-patrulha, impotente perante a chacina dos seus homens.
O coração de Billy batia-lhe fora do peito... que seria dele se tentasse sequer fazer o seu dever? As análises toxicológicas mostrariam indícios de droga e álcool no sangue. Os seus superiores crucifica-lo iam por fugir ao tiroteio, assumindo que não o associavam ao gangue. Cerrou os dentes e agarrou Ratchet pelo pescoço, ao mesmo tempo que lhe enfiou 4 ou 5 balázios da sua 9 mm, à queima roupa pelas costas. No caos do tiroteio "Crazy Earl" mal percebeu o sucedido, caindo com um tiro certeiro na têmpora.
Ofegante, Billy gritou o cessar-fogo ao Sargento e logo este concentrou o esforço policial nas janelas e porta do quarto 10; sem hesitar, fuzilando com a automática os membros do gangue que permaneciam prostrados no chão a poucos metros de si.
Enquanto isto, Billy refugiou-se atrás de uma chaminé no terraço, sabendo que tinha sido ouvido e descoberto pelos pulhas lá em baixo. Só com muita sorte sairia vivo de Red Rock Hills... Seriam esses os seus últimos minutos de vida? Entregue no meio de sangue, whisky e droga? Estava longe dos dias da academia, da "sabedoria" dos livros e das noites de cadete em que se imaginava tomar parte numa grande operação como esta.
- Estão em minoria, entreguem-se agora e não precisam de haver mais mortes! - tentou o Sargento.
- Vai-te fo... porco! Despachamos o chibo antes de cá chegares, o vosso Billyzinho vai a abrir! - grunhiu um dos janados lá dentro.
No terraço sentiam-se os passos de homens feitos correndo escadas acima, ao que o jovem Detective se prepara para executar uma decisão radical: sem hipóteses de resistência naquela posição, lança-se em voo do telhado, aterrando secamente em cima das suas costas e dos vidros partidos, que polvilhavam a frente do motel. Numa fracção de segundos sentiu a dor de mil vidros rasgando-lhe o casaco de cabedal, a pele e a carne. Estava imóvel com a dor do impacto, mal sentindo o corpo quando as balas entraram, nos segundos que se seguiram ao seu voo temerário. Lá em cima os pulhas soltavam a sua última gargalhada.
Ao chegar o Comandante Harding e a sua unidade, o contingente policial efectuou com sucesso a entrada no quarto, chegando ao terraço, onde apreendeu os suspeitos. O Detective Gaines foi de imediato transportado para o hospital do Condado, falecendo na ambulância devido a perda de sangue. Tendo sido condecorado postumamente, na sequência do seu trabalho, que conduziu à recuperação do carregamento de oxicodona e salvamento do camionista. No roubo e sequestro planeado pelo gangue conhecido por "Steer Kings" o crime não venceu. Terminado o inquérito à operação e liderança do Comandante Joe Harding e do Sargento Thomas Hawkes, enquanto superiores no comando, foi o mesmo arquivado.
Nesse dia o sol nascente não conseguiu secar as poças de sangue e água, que a madrugada derramou em Red Rock Hills.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
O Otário

Ninguém vem falar com ele e onde está os segredos ressoam pelas paredes mais nitidamente que o velho transístor. É da janela que vê. A ti. A mim. Esgrimindo mentiras em verdades disfarçadas de segredos. Nós somos tudo menos o aspecto limpo e bem vestido que aparentamos. Não interessa o que escondes debaixo do cabelo. Ele já viu. Tantas vezes.
Quem és tu? O que vi eu? Inventei eu uma mentira ao julgar-te diferente? Aquela que tantas vezes proferes sem querer saber se eu sei. Di-la tornando-a verdade?
Na insignificância ele vê-nos aos dois. Fingindo não nos importar. Mas será assim? Um bluff glorificado… Depois de tudo e do que devia saber, era de esperar que acabasse de outra maneira, mas quero pagar para ver... enquanto ele olha e te conhece pelo som dos passos, cada vez mais distantes, para não voltar.
sábado, 13 de novembro de 2010
Homens Invísiveis

“People who are homeless are not social inadequates. They are people without homes.” - Sheila McKechnie
Os faróis que iluminam a estrada não me procuram e saio-te ao caminho como uma aparição. Não és tu que vejo à claridade. Só quando as luzes se apagam te revelas no frio cá fora. São expressões feitas, onde à tristeza sorris cinicamente. Assim te enganas, nos dias em que o calor não se sente e se gela a alma.
E agora sei que te vou perder por tudo de bom que tenho, sem nada para pedir. Por tudo o que de mau há em ti não serei um mendigo. Não quero entrar, só procuro um abrigo. Não me olhes caído sobre uma arena maior que a tua vida, não receies pelas minhas feridas, pois são só minhas.
Toca-me e sentirás a preto e branco, cenários tão coloridos, que a tua vida te parecerá interessante em comparação. Como se olvidasses o ralo, deixa o veneno transbordar: quero afundar-me nas águas do remoinho, pois à deriva sinto-me a sufocar.
Porque pensas que desisti de viver? Porque te sentes tão afortunado? Sabes se estou aqui realmente? Ou sou alguém quem julgas conhecer?
Sabes? Uns dias por não ter e, acima de tudo, porque é tão fácil esquecer e ser como tu. Acima de tudo, porque se torna tão difícil viver, em consciência, com alguém que não quis ser.
Passarás por mim mais uma vez, iluminado, sabendo que sofri e perdi sozinho. Passarás amanhã nestas ruas vivas, com os náufragos do novo mundo, sem sal nas lágrimas para chorar. Há uma escuridão no caminho, deambulando na noite, que é o meu lar.
sábado, 30 de outubro de 2010
Encostado às Cordas...
Mesmo assim não desistirei de uma luta que tu sabes que nunca irei ganhar,
Contínuo, incessável e urgente, assim é tudo o que a ti me faz amar.
Não sei mais parar, nem ainda assim, alimentar o que nos une de separados que estamos...
Foste o mais árido dos desertos ou o mais vasto dos oceanos,
Perdi-me em ti, sabias?
Sonhei com esses dias, vendo-te feliz, leal e permanente,
Por momentos partilhei-os contigo, sem medo, numa alegria inocente.
Mas, há uma maré nos assuntos do Homem...
De onde deriva tanto a minha desgraça como a fortuna, levando-te para um além,
Desaparecendo e voltando na rebentação, em desdém,
É tão mais fácil cair no sono quando estás a sonhar comigo,
Talvez por isso nunca tenha verdadeiramente adormecido.
Como será acordar contigo?
Eu, pedindo abrigo numa terra sem história,
Tu, um mar sem memória,
Que forte é esta ilusão...
Sem ritmo ou afinação, uma bela e um senão:
Abre os olhos! Eles não me verão.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
O rio de sangue
"Sim, cede à justiça sangrenta. Agarra-os pela jugular e rasga-os da mentira. Olha para o sangue a jorrar... que visão irónica, pois quem derramou o primeiro sangue foram eles. No seu contínuo embuste. Matai-os a todos! Pois te ordeno".
A sombra da traição é implacável quando cai sobre o homem justo. O ridículo usa muitas faces e muitas vezes o ridicularizado jaz caído na lama, cobrindo o semblante. Não que exista maior gáudio para os fracos de espírito do que a queda de quem se tenta, desesperadamente, manter de pé. A face de quem se recusa a mergulhar na ignomínia não será encoberta e desfaz até o mais cínico dos falsos.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Canção do Caos

Do alto das tuas muralhas me observas cá em baixo, onde te aguardo no abismo da luz,
Entre reflexos de incandescências voando em espiral. O vento é negro e encandeia-te o olhar, desfazendo-se em brumas... sequioso o soturno respirar te envolve a índole,
Ouve o trote do meu áureo corcel.
"Acorda do teu transe e sopra o escuro até ao luar": ressoam os passos deste hipnótico cavalgar.
Conversando sem sentir não irás longe.
"Acorda e deixa-te viver", sentindo na minha fala um brilhante sibilar... vem comigo nesta estrada de nebulosa,
Anda... sem recear.
"Acorda neste celeste despertar"... Escorrega para a espiral e balança o meu eixo, sacode as fundações do teu soturno cativeiro...
Cura o sono e deixa a febre assomar.
Na companhia da morte passam Éons em minutos, foge da prisão astral, encontra em mim a tua força vital, e subiremos juntos este eterno rio de luz.
Há espaço na esperança para nós: púrpura, vermelho, carmesim até acenderes a chama - Há tempo na ventura para nós: negro, cinzento e branco respiras ao nos desfazermos no ar.
Somos absoluto no relativo, pairando sem gravidade, numa pureza sem sentido. Uma luz no universo, tu és o calor no meu peito e eu o espelho do teu acordar. Unos estaremos enquanto o destino nos quiser separar. Morremos para viver, renascendo numa ideia em que sonhamos estar.
