quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Popalavras #1

Esta nova rubrica consiste num roubo descarado de uma ideia da personagem do Ethan Hawke no Antes do Anoitecer. Ora, proponho-me a fazer uma actualização semanal daquilo que tão inocentemente (ou não)  preenche o meu imaginário, no espaço de tempo de uma música pop. Se tudo correr bem serão presenteados com pérolas musicalmente ficcionais, inversamente, lá chegaremos à Rihanna e Cª. Prontos?


Tive a minha primeira experiência a conduzir Karts. Na verdade, tratou-se da "Primeira Corrida Intercontinental Fonemas Invertebrados". Dão um carro para as mãos de um sujeito cheio de testosterona e com assuntos pendentes com o destino, como aqui o tipo-com-um-nome-de-blogue, e está o baile armado, no que toca a esquecer todas as... (epá, não me lembro da palavra e já vamos naquela parte do "pap pap pahhh") mariquices e blá blá qualquer coisa, segurança na estrada.

O tiro está dado e saio quase em último. Pé no prego. Curvas! Travão! Sem largar o acelerador: derrapagem. O calhambeque que me deram veio com defeito e o piso deve estar escorregadio - quase perco o norte e cheiro a relva, quase... Receita: a fundo. Ultrapasso uns quantos e o encarnado dos olhos começa a vermelhar. Curvas abertas: carrega e segue a direito! - Apertou de repente: Trava! Nunca largando o pedal. O bandeirola que está de fora avisa-me para alternar com os dois pedais - "Queres o quê ò parvalhão?! Anda cá para dentro e ficas a dieta de pó como os outros!"

Os lugares estão em disputa e já passou a parte em que a música fala do Bruce Springsteen. Ficou a nata do asfalto, os tipos a abater. Um deles despista-se e embate no outro: Azelha! O carro 27 é tudo o que me resta até à glória eterna (já ouvi antes "this is one race he won't win", até a banda está contra ele e tudo corre bem). Imagino o Domingos Piedade a dar-me os parabéns na meta e a gritar extasiadamente o meu tempo pela a volta mais rápida, mas o carro 27 nega ainda o doce complemento do realismo. Passam duas voltas e chego cada vez mais perto, ficando sempre tapado nas curvas. 

À nossa frente sai da boxe um machimbombo conduzido por alguém de costas magras e casaco de cabedal castanho claro - é uma gaja! Ela vai arruinar tudo. É desta que me levam o carro e a saúde, que o dinheiro já foi todo para o Passos. Ele passa-a, enquanto ela me corta bruscamente a ultrapassagem. Domingos? Como é que deixaste que isto acontecesse?! Estou desgraçado, o 27 já lá vai e eu preso à retaguarda - "*uta, és uma filha da *uta. Morre." - Não morreu, no entanto, devido a circunstâncias que desconheço o 27 surge novamente à vista. Mesmo a jeito para ela o passar. Macumba, só pode.

O 27 saiu-me um pila mole e na última chicane tiro o pé do pedal antes da curva para carregar novamente com toda a força, deslizando por fora. A vida passa-me diante dos olhos enquanto o bandido conduz à velhota ao meu lado. Vêm-me à memória as aulas de física do 8º ano e a noção de força centrífuga pega-me pelo braço para o castigo - "just look at us now..." - insisto, repito e largo ligeiramente o volante por instinto. O bólide endireita-se, o biltre assusta-se com o meu arrojo. Ficou para trás na recta da meta. 

Já dizia o Paddy com tremenda sabedoria, no nosso inglês traduzido: há coisas piores que carros e gajas. Há: É perder uma corrida de carros para uma gaja. O terror. A desonra. O drama. A corrida acaba e tiro o capacete para ir direito à lésbica que me custou um dia em cheio. Vista de trás é a figura do Demo: cabelo curto e pernas de canivete com andar à camionista. Já de língua afiada para lhe mostrar o "charme", a tipa vira-se... é um tipo! Raquítico, com ar de quem saiu do autocarro da CERCIMB e mais magro que o Maquinista. Deve ser um batido nisto, daqueles que já tem as costas da cor do banco e os pés agarrados aos pedais como ventosas. "Batoteiro...o campeão és tu" segreda-me o Domingos ao ouvido. Tal e qual. Se soubesse nem cá tinha vindo suar a camisa. Quero lá saber de carros e gajas - a minha vida já tem uma senhora digna desse nome e pago o suficiente em prestações do carro para andar a gastar em brincadeiras. Até para a semana.

sábado, 15 de setembro de 2012

Bebida, mulheres e cantada

O tilintar vítreo dos cubos no copo anuncia mais uma rodada e ainda não passava um quarto das dez. Enquanto isso, tomam-se uivos primitivos e outros silvos em tons de negro e azul florescente no "Long Tall Sally's".

- "Hey, Lester. Obrigado pl'aquilo d'há bocado e tal, mas quando pensas pagar a conta?" proferiu o barman. Pouco tempo antes, os lavabos masculinos haviam sido remodelados com as feições de um efeminado. A ajuda dos fieis foi apreciada e devidamente recompensada.

Petey era um sujeito cuidado, conhecido na zona como a cara atrás do balcão. Não havia outro bar e tão cedo não haveria outra cara - "viver e morrer em Reading..." era o lema de Pete quando as coisas corriam mal. Tratava bem os regulares e encantava os visitantes com as luzes baixas e as cores frias da cidade. Ainda assim, quando obrigado, sabia atacar do seu canto. Ou achava-se sabendo.

Lester Pepper estava absorto nas suas considerações, agitando subitamente os braços em movimentos orquestrais, desviando por completo a atenção da sua estranha figura: a sua estatura impedia-o de ser visto como "magro", era esguio; a sua face revelava alguma idade, sem que o cabelo negro desse sinais de brancura, mesmo bem puxado para trás; e usava óculos, escuros, de ciclista, à noite e num bar. De facto, um piloto de avião dos anos 20 estaria mais bem enquadrado naquele sofá de canto.

- "Então Lester como vai ser?" inquiriu Petey, talvez com um pouquinho de zelo a mais do que a situação exigia, recordando a proverbial aversão ao pagamento de dívidas que o álcool causa. Lester esticou a mão esquerda e estalou os dedos ao serviçal - "Estais a chamar-me irlandês ou fui eu que percebi mal? ...Deixa estar! Em vez de responderes ouve o que te digo: A conta vai ser paga por um daqueles dois tipos. Até te dizia que era o mais baixo, não fosse estar demasiado ébrio para citar detalhes" e apontou sorrindo, para um indivíduo baixote de tez morena que olhava descaradamente para a namorada do segundo, um largueirão avolumado a esteróides, acompanhado da "puta" e dos outros dois "estarolas".

Petey protestou, mas havia um ingrediente secreto no timbre do bêbado a dar-lhe a volta à cabeça. Simpatia. Uma das palavras menos conhecidas no universo da clientela do Sally's, tendo-se tornado um bem escasso nessa vida de barman. A urbe era frequentada por gente rude o suficiente para nem se incomodar a despir o fato de macaco, antes de fugir para a "sexta à noite" e Lester jogou essa carta com extrema precisão. O seu "triplo, sem gelo" não tardaria a chegar. - "É pena Petey... até sou irlandês..." murmurou para si num esgar de gozo.

No dia de São receber a festa era dos empregados, que iam e vinham enquanto as horas passavam. E nas tais cogitações de Lester Pepper não haveria pior emprego que o de vadio. Hora de pagar. Levantou-se, dirigindo-se ao segundo na contagem, o tal "guarda-fatos":

- "Boa noite, amigo."
- "Não sou teu amigo. Desanda."
- "Quanto vale uma dose?"
- "Hein?! Quem é que pensas que és?! Já te vi na vida?! Desaparece-me da frente seu agarrado de merda!"
- "Antes disso diz-me uma coisa. A coca que tens no bolso paga a porca que está levar com ele no WC? O produto foi feito para o lucro e ela está levar de graça, amigo."
- "Que estás para aí a dizer?!" e voltou-se para os macacos "Um tipo não pode falar com ninguém que vocês deixam-se dormir? Onde é que ela foi?!"
- "Vou andando, amigo" e acenou ao barman com o copo vazio. Pousou-o no balcão e despediu-se - "O meu amigo trata da conta!".

"De que serve a vida se não nos matamos um bocadinho?" era o lema de Lester Pepper.

sábado, 8 de setembro de 2012

Os Olhos do Sul: III - Santuário

Passo a passo, haviam três dias que tinha deixado Texarkana, depois de executar os seus perseguidores. Aos agentes que o escoltavam demonstrou a sua faceta mais misericordiosa e deixou-os na bagageira. Vários anos num buraco tiram o sentido de conforto a um homem, mais a um que não compreende porque está vivo - no entanto, eles pareciam integrados o suficiente para testar a claustrofobia por umas horas. Tomou uma camioneta de transporte de aves, dissimulado na traseira, para em trocar de boleia em Shreveport na direcção de Lafayette, Louisiana.

Viajar de noite tem que se lhe diga. Tem até animais no meio da estrada, quem sabe atraídos pela luz dos faróis ou apenas desprovidos do instinto básico, que leva qualquer criatura com ambições de sobrevivência a não se mandar para a frente de um corpo a 75 milhas por hora. Existem picos de sono, queiramos ou não, a meio de uma conversa sem interesse. Essencialmente, tem paragens para descanso e para utilizar os lavabos. Numa dessas paragens, Kurt saiu do carro em direcção ao WC, tal como o condutor da pickup GMC, de seu nome Roland. O sono e a fome só priorizaram sua a necessidade de alívio, a única cuja satisfação era possível na altura. Aquele minuto, desde o desabotoar das calças ao esfregar das mãos é sagrado. Kurt sabia-o e Roland sabia-o. Mais desperto que nunca, abriu a porta com um ar triunfante e realizado, contemplando a área de descanso: Um pequeno parque de merendas a este, a encruzilhada de estradas para oeste e o estacionamento a norte; a carrinha GMC, essa abandonava agora o estacionamento a grande velocidade. Ficou o cheiro a borracha queimada e, pois claro, o pendura.

Deixado à sua mercê num estacionamento deserto no meio da noite, pouco depois de Bunkie, Lousianna, decidiu continuar a andar. Não sabia para onde ia, apenas saiu da Interstate 49 e enveredou por outro caminho em direcção a Lafayette. Caminhou por pequenas povoações, mantendo para si que os seus bolsos vazios e a imagem deslavada não lhe permitiam pedir ajuda nem trabalho. Muito menos mendigar. Não o faria, pois não sabia nem tolerava fraquejar dessa maneira. "Que humilhação, ser atirado para berma da estrada por um campónio que tirou partido das suas necessidades básicas" - pensava e repensava, enquanto puxava pelas pernas.

Com alguma frequência, quando um sujeito olha para o horizonte quase consegue agarrar as folhas das árvores e pisar a terra, sem que o resto importe. Essa é a vontade e o crer, o espírito do homem de sangue fresco. É, mas está calor, arde na cabeça e pesa no corpo, sem alimento nem descanso. A vontade é quebrada e o crer não levanta os braços à altura dos ombros, quanto mais dar outros dois passos na direcção do abismo horizontal, mesmo diante dos olhos. A obstinação férrea é o que leva ao limite e dá esses dois passos sem pernas, rastejando e percorrendo os centímetros na areia como se fossem metros.

- "Olha para ti. Tremes por todo o lado. Há quanto tempo não paras ? Há quantos dias vagueias sem rumo? Descansa e permite-te a pensar no que fizeste..." pregava Sarah num eco constante.
- "Cala-te! Deixa-me andar que preciso de andar. Quero andar! Quero, quero ir, estás a ouvir?!" retorquiu Kurt desarticuladamente, num sopro quase tão seco como a sua boca.

A aparição foi subitamente interrompida por uma bátega de água fria que se abateu sobre o seu rosto, quase enterrado na areia. Entre urros que não distinguia, ao fundo uma voz de criança exclamava - "ele não acorda pai! e agora?" - E caiu, mais uma vez, a água sobre ele, correndo o fio pelo pescoço abaixo. - "Estou acordado!" bufou. Erguiam-se defronte do seu corpo prostrado duas pessoas: um homem e o seu filho. O pai, era um individuo esguio com barba loura de traços grisalhos, vestia casaco e camisa negros com calças de ganga e botas de trabalho. Já o filho aparentava os traços de uma criança saudável e estava aperaltado com um fato domingueiro. - "É um bêbado, paizinho?" - "Não sei filho...". E seguiram mirando, até ele se levantar. Na margem do riacho, que dividia a estrada a vegetação crescia em redor num verde muito vivo, com ervas altas e arbustos acercados das árvores. Via um rapaz de cara redonda sorrindo timidamente e apreensivo, olhando, ora para o pai ora para o estranho. A dor latejante na zona lombar não fazia esquecer a moinha nas costelas, entorpecendo-lhe o raciocínio e o discurso. Levantou-se para logo ceder.

- "Não sei se me estão a empurrar para fora do caminho, em todo o caso só precisei de um refresco..." disse, tombando o corpo para cima dos viajantes.
- "Quer que o deixe nalgum lado? Certamente, não está capaz para andar..." falou o pai.
- "Mais umas horas e volto à estrada, não pensem que vou ficar aqui! Quem são vocês?!"
- "Willard Ledeux, cavalheiro. Reverendo da Igreja da Colheita Reformada. Diga lá amigo, está embriagado?";
- "Hein? E o rapaz?";
- "Meu filho..., ouviu o que lhe perguntei?";
- "Reze por mim daqui a umas horas padre...", e voltou a deitar-se no chão.

O reverendo segredou ao ouvido do filho e o rapaz, bem ordenado, abriu a bagageira da pickup - "Permita-me a graça de lhe facultar uma refeição quente e uma cama na minha missão, senhor..." - Kurt escutava admirado com o desprendimento do cúria, que se ajoelhou à sua altura, em súplica.
Reuniu todas as suas forças para declinar a oferta, apercebendo-se lentamente de estar a lutar contra si próprio.
- "...escute padre... não quero parecer mal e não nego que até posso dar ares de perdido, mas Deus não quer o meu tipo na sua casa, percebe-me?";
- "Deus não distingue... e eu não quero falar a sua palavra a ouvidos moucos. Asseguro-lhe apenas que não é o primeiro. Do seu tipo, já eu fui. Perdido?! Evadido, sabe-se lá de que buraco e agora lançado ao mundo...";
- "...cumpri a minha pena padre e não cobro nada a quem não esteja a dever!";
- "Bem sei filho, bem sei... e já li essas palavras na lápide de muito homem. Deus não sente, mostra... Prometo uma refeição quente e cama por uma noite. Mais que isso... bem, faz-me jeito uma mãozinha a mais na missão. É justo para si?";
- "Não tem medo padre? Um tipo como eu, junto da família?";
- "Sou só eu e o Nicholas, a minha esposa já não está entre nós. Afianço-lhe no que Deus não mostra aos incautos, sabemos tomar conta um do outro.", disse batendo na jaqueta. - "O pai tem uma pistola! Bam, bam!", brincou Nicholas, sem que o reverendo esboçasse um sorriso.

Os dois homens olhavam fixamente um para o outro, Willard, sereno e firme, enquanto Kurt cerrava os dentes para se esquecer do buraco no estômago, das dores nas costas e do receio de confiar noutro ser humano novamente. - "Como se chama o senhor?" perguntou Nicholas. - "Kurt, sou o Kurt. Vamos já, pode ser, Nicholas?" - agora munidos da distracção que precisavam para sair empatados do duelo de olhares, os dois homens apertaram a mão e levantaram-se.

A poucas milhas acima, erguia-se a igreja no meio do mato verdejante. Um edifício velho em madeira, mediocremente conservado, despojado da sua cor original pelo sol e chuva, sem se poder afirmar com certeza de ser corrido a frestas ou tinta estalada. Nas traseiras estava o barracão de ferramentas e dispensa, rodeado dos lados por um galinheiro e por uma clareira, onde assentavam várias colmeias. No interior, a casa do senhor não escondia luxos: dois quartos e uma cozinha ensaiada; lá fora, mas contíguos ao edifício principal haviam, em cantos opostos, uma retrete e um chuveiro.

As tarefas eram simples, ainda que árduas: levantar ao raiar do sol; tratar das colmeias com o reverendo, inspeccionando e mantendo-as contra aves migratórias, verificar a população de abelhas e recolher o mel ou voltar os favos; tratar do galinheiro, limpando-o, recolhendo os ovos e alimentando as galinhas. Ao longo do dia os fieis do bayou visitavam a igreja, eram trabalhadores dos viveiros de camarão, agricultores ou criadores de gado e todos eles ajudavam o pai Ledeux com pequenas oferendas. Aos Domingos o reverendo falava abertamente à pequena congregação desse meio rural, sobretudo da entreajuda na comunidade e da fé em Deus, que através dos vizinhos chegaria até ao mais pobre. De tarde haviam pequenos convívios no rio, onde se bebia, cantava, cozinhava e até testava a pontaria nas garrafas vazias.

Kurt respirava pureza, não tanto do ar como dos espíritos. Sarah era hoje uma ferida cauterizada, via-a no horizonte para onde não queria olhar e onde ela não se mostrara mais. Em divagações, chegou questionar Willard se não teria sido assombrado por um espírito profano repelido pela santidade desta casa. No entanto, insistia em guardar para si todos os detalhes do seu passado e a discussão terminou com um - "...deve ser a humidade do rio que me põe estes pensamentos na ideia. Não vamos maçar Deus com devaneios sem sentido" - De facto, quanto mais cortava relações com os mortos, mais se ambientava aos costumes dos vivos. Apreciava a companhia de Willard e Nicholas, a maneira como viviam tranquilamente, em linha recta, sem desejos de fazer o mundo pagar pelo que lhes havia tirado. - "Por quanto tempo?" questionava o seu íntimo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Os Olhos do Sul: II - III (Intervalo)

Dois primos cajun, em passeio com a família pelo Arkansas, acordam sobressaltados pelos eventos da noite passada:

- "Bo' dia Dud, iss' é que fou uma confusion des diabes onté..."
- "Né outra cous' sena' verdade. Aquel' sujeite trouxe o Inferne con el´; Or' vide tu que pega des moçes e quita-lhes a vide sé mais... num se faz."
- "...falo'-me Marie que le matou ca force du demón."
- "Da policie sai' que vai un pendurad' e no últime, assomad' à pont' daqui, que lo sufeco' con óil."
- "Avec huile?! Mon dieu..."
- "É verdad' mon ami... Fue horrível: lo turturrou par l'informaçon e quand na' le diz, le poen óil p'la boca."
- "Nes pa... l' éncontraron les malandres?"
- "Non. É Piore ils pensen que fue un só..."
- "Le fin é próxime, prim' Dud... Tres Próxime"

terça-feira, 24 de julho de 2012

A cem metros, Sereia!


Cá estamos filha da puta! Outra vez a fazer a mesma merda… caralho pá! É que não vales mesmo nada, mas quem é que te disse que a estupidez era arte?! Ai é? É isso que queres fazer?! Fazias melhor figura se te matasses pá… ao menos poupava nas dores de cabeça.

Dizes que és diferente e a única diferença é a cara. De resto, não muda! Vulgar, puta e oferecida à carneirada… e eles para te aturarem… deves julgar que andas a vender peixe de outra carne. És a mesma triste figura hoje que eras há 10 anos e por tua vontade vêm outros tantos. A sério? É isto? És isto?

Cabra cega e parva, não consegues tentar sequer?! Logo havias de ser assim, ordinária. Até a porra da outra, que nunca acertou uma de jeito, teve razão quando falou de ti! Atitude de merda, vai-te encher de moscas… fodam-se as tuas manias e as tuas taras! Vives delas como o porco da porcaria! Epá, desaparece, mesmo! Deste mundo, disto tudo. Cai fora. Oxalá te fodas e te partas toda.

Estou para ver o que sai desta vez. É que podias morrer longe, mas não! Já não há quem te ature, porra… Mais o quê, caralho?! Queres mais? Tens asas? Então deixa-me da mão, põe-te na puta que te pariu! Isto, aquilo e o outro… o quê?! Já te disse e devia ter dito, queres ser assim, mata-te! Davas um enterro com mais pinta que a puta da fronha que mostras todos os dias da tua vidinha…

E agora?! Lê isto, pensa e mete a cabeça a trabalhar… Pois, não dá, não soma e não faz. Cada minuto que passo perto de ti faz de mim um estroina, desses onde tu gostas de chafurdar… tudo o que tocas desfaz-se em porra de pedaços, fodes tudo pá! Olha para isto. É tudo para ti. Um manguito pequeno demais para o merecimento da tua existência. Um exercício de onanismo em retórica de arrepiar caminho. Volta para o inferno de onde saiste e leva outro como tu para lá. Fartinho disso já eu estou.



Os Olhos do Sul: II - Correndo Com o Diabo ou A História de Tommy Livingston

Calças de ganga Lee 101, T-shirt velha dos Doobie Brothers, botas Chippewa e um casaco de cabedal castanho que nem sequer era dele - "aqui estão os seus pertences" - um relógio Tag-Heuer, literalmente parado no tempo, uma carteira com a carta de condução, 40 dólares e o bilhete de autocarro Interstadual. A roupa ficava-lhe ligeiramente larga - por tudo o que perdera nos últimos cinco anos o peso havia-se transformado em músculo - o relógio já não o servia. - "Tenho tempo de sobra, queres comprá-lo?" perguntou a Gutterson. O guarda fez-lhe sinal para se calar e passou-lhe uma nota de 10 para a mão.

Tommy "Crow" Livingston imaginava tudo isto a acontecer, enquanto esperava do lado de fora da cadeia. Acompanhava com o olhar cada passo de Kurt Stone, media-o e ansiava pelo seu confronto. "Meteu-se com o gang e o gang vai deixá-lo no lugar", pensou. À saida de Huntsville, Tommy e três outros motards assistiam ao caminhar de Kurt Stone em direcção ao terminal de autocarros - aos passos lentos e pesarosos, ao ar perdido e destanciado da multidão - "Este tipo parece um zombie! Podemos apanhá-lo mesmo aqui no Texas e despachar a coisa antes do meio-dia!" disse Tommy em tom de chacota e logo ouviu resposta, "Vais fazer como te mandaram e calas-te antes de sequer pensares em abrir a bocarra! Este tipo tem levar com a marca dos Steer Kings e isso acontece onde deve acontecer à hora em que os adultos decidirem, comprende?".

O galgo cinzento lançou-se pela autoestrada e os quatro motoqueiros abandonaram a perseguição, a próxima paragem era em Texarkana, Tommy sentia o sacudir do colete à medida que a velocidade aumentava. O Presidente tinha encarregue Aiden "Turk" Moss de "interceptar um certo ex-condenado e passar a mensagem de que os 'Kings não esqueciam nem perdoavam", tudo aconteceria o mais longe possível de casa. Com ele seguiam mais dois veteranos, Bo "Diddley" Jones e Austin "Deuce" Hill, para iniciar o "petiz" numa missão de honra.

Junto do terminal a multidão dispersava e apenas Kurt e mais duas pessoas se mantinham sentados. Turk e Bo avançaram pela retaguarda enquanto Tommy e Deuce se picavam com as motas pela frente, em jeito de manobra de distracção. Rodando em círculos, enervavam visivelmente os dois homens junto de Kurt enquanto este se mantinha sentado, impávido.  Tommy estava tão compenetrado nas manobras que mal ouviu o tiro para o ar. Diante dele, o revolver fumegante do agente Morris aconselhava prudência, enquanto o seu parceiro, Duff, apontava a Deuce - "O espectáculo acabou rapazes, está na hora de partirem na direcção do sol poente! Não os quero voltar..." -

«Clic»  

- "Lamento interromper, mas caso não tenhas percebido, isto foi o cão. E a seguir vem o gatilho. Em que direcção achas que vamos?" interrompeu Turk, surgindo por trás do polícia. Logo Deuce aproveitou a deixa - "Na da bagageira! Ah!" gritou, rindo-se. Como dois cavaleiros pelo asfalto, Tommy e Bo resistiam contra a saraivada de água que caía em Texarkana. Há vários minutos que não ouviam as pancadas dos agentes Morris e Duff, a malfadada escolta. Encafuados como malas velhas, enquanto Turk e Deuce comandavam o autocarro.

A tarde passou a noite e o dia não se deixava ver, nem para a frente, quanto mais o fim. Nas palavras do último para Kurt - "Foi uma viagem atribulada, mas só agora começámos". O jovem aspirante pensava no que aqueles dois iriam fazer... sair da cidade era obrigatório, mas o plano era não haver plano.

Perto de uma zona florestal, já nos limites da cidade, a caravana pára sem aviso. A porta abre e Turk, seguido de Deuce, saem de mãos na nuca. Bo e Crow nem tiveram tempo de reagir. O refém havia tomado controlo da situação, frio e distante como sempre, segurava a arma no escuro. - "Cheguem-se para debaixo da luz do candeeiro, é já ou não há depois!" ordenou assertivamente, chegando-se para as motas. Sob ameaça de tiro, o gangue assistia à pilhagem dos seus pertences, tal como no velho oeste. Kurt segurou as correias da bolsa e atou-as às costas como uma mochila, em seguida profere em tom solene - "Gostei deste bocadinho, especialmente por ter sido curto. Até sempre meus senhores." e dispara seis tiros do revolver de Deuce.

Incrédulos, os cinco homens olham uns para os outros em choque, voltando a mirar-se. A perícia de Kurt com as armas de fogo nunca tinha visto melhores dias, ainda que infelizmente para ele, também não tivesse visto piores: os tiros falharam o alvo, todos eles. Recorrendo ao mais básico instinto animal, o condenado foge à desvantagem, lançando-se em corrida para o mato em redor. Encharcado e amedrontado, Tommy mal se conseguia mexer, enquanto Turk fugiu pelo mato deixando o resto do gangue para trás.

Alguns segundos depois, Tommy, Deuce e Bo entraram no mato. Já no negro da escuridão e  percorrendo o lamaçal, os três homens resistiam ao medo e ao frio. Passo ante passo, tacteavam as árvores e procuravam luz no luar - "O que é aquilo?!" exclamou Bo, referindo-se ao barulho metálico que vinha da direita. Balançando como um pêndulo, avistaram o cadáver de Turk pendurado num tronco, enforcado na corrente da mota. - "...dass! O qué isto?!" gritou o jovem rufia, virando-se para trás em horror. Antes que Deuce pudesse reagir, Kurt sai da escuridão e atinge-o na nuca com um tronco bicudo, desferindo de imediato um murro no nariz de Bo. O estalar do osso do nariz de Bo propeliu Tommy para correr como os pés deixavam, enquanto as pernas aguentassem. Kurt havia-se tornado na figura do medo desesperante em pé ligeiro.

Escorregava e trepava, saltava e tropeçava conforme o terreno ajudava, mesmo sentindo a vida a fugir-lhe a largos metros e em passo largo. A sua única esperança era chegar à South State Line Av. e atravessar a estrada (na verdade, cinco vias de trânsito), onde poderia procurar refúgio num motel. Atrás de si, ouvia os lamentos indecifráveis do seu companheiro, ainda agarrado ao nariz, inspirando o próprio sangue. Anos de bebida e tabaco pesavam na respiração como nunca e depois de dois minutos a correr, o ar parecia ter-lhes sido aspirado do peito. Ofegantes e sem sentido de orientação, percorriam a linha de vista à procura de uma luz, de uma casa, de um carro ou qualquer sinal de auxílio. - "Ele vem aí! Estás a ouvi-lo?" desesperava Bo. - "Por aqui! Vamos!" disse Tommy enquanto empurrava o colega, assumindo a liderança. Sem fôlego, corriam descoordenados pelo bosque, almejando uma luz ténue para lá do arvoredo. Já cegos pela esperança, escorregam num declive onde a chuva fez a terra abater. Entre o chão e a cara de Tommy apareciam um tronco e a pancada. Se antes se via mal, nesse momento as luzes apagaram-se.

Voltou a si depois de ter perdido os sentidos por uns segundos e ao seu lado, jurava que era a efígie de um demónio de olhos vermelhos, esmurrando furiosamente a carcaça sangrenta de Bo, levantando no ar pedaços de crânio e aquilo que parecia um globo ocular. Os dedos da mão, ainda dormente, tremiam agarrados à terra. "Também não me agrada este trabalho mal-amanhado... diz muito pouco da minha pessoa, mas vocês não vieram para conversar, pois não?" insinuou o demo em tom macabro, logo se levantando. Retira da bolsa uma lata de lubrificante de mota e abeirando-se de Tommy, sussurra-lhe ao ouvido "Ora, conta-me lá um segredo, passarinho".

Os Olhos do Sul: I-II (Intervalo)

- "Dizem que se foi o Justiceiro Solitário... E já estou à espera da comissão há meses."
- "Que estás para aí a falar?"
- "A minha audiência para o recurso! O meu advogado diz que um tipo à espera de execução há 10 anos tem mais hipóteses de perdão..."
- "E o que tem a ver o tipo do filme?"
- "Qual filme?!"
- "Na'tavas a falar no Cavaleiro Solitário (Lone Ranger) porra?!"
- "...Justiceiro! Vale agora a pena falar contigo! 'Tás bem é com a Biblia pá!"
- "É que nem te atrevas a invocar o nome do senhor em vão! Diz lá que filme é esse então..."
- "Na'é nenhum filme pá! É o gajo que 'tava há anos na solitária!"
- "...e é justiceiro porque tava feito com a mona?"
- "Epá cala-te e ouve! Chamam-lhe justiceiro, porque se passou no Tribunal e encavou os tipos que lhe mataram a mulher!"
- "Limpou-lhes o sebo?"
- "Nada disso! Chibou-se que tava feito com eles e começou a dizer que os conhecia e que mataram a gaja por gozo, tipo ritual motard..."
- "E os gajos vieram dentro, certo? E ele saiu."
- "Até que enfim! Foi isso mesmo, percebeste? O Juiz queria-os dentro e o Juri também, por isso ninguém se incomodou muito."
- "Justiceiro...? Se me 'tivessem quinado a maria não havia justiça neste mundo para os salvar, nem ta'pouco a mim no outro. Era um bilhete de ida pó'Inferno, digo-t'eu".